Falhas Espíritas

Allan Kardec era racista?

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Faz alguns anos, já, que de vez em quando alguém me pede para defender Kardec da acusação de racismo. Existem artigos na internet acusando Kardec de ser racista, e então algumas pessoas me pedem para refutar essas críticas.

Eu não vou refutar crítica nenhuma por dois motivos:

Em primeiro lugar, por que O Paulo Neto já fez isso magistralmente:

Racismo em Kardec!

Em segundo lugar, por que eu não sou defensor de Kardec – eu não estou aqui para defender ninguém. Eu defendo ideias, não personalidades.

Aliás, é uma coisa bem ridícula essa necessidade de ter ídolos. Isso fica bem num adolescente, que está buscando um parâmetro de conduta; mas nós vemos por aí pessoas adultas, estudadas, com uma larga bagagem de vida, defendendo Chico, Divaldo, Kardec…

– Quando é que vão aprender que o Espiritismo nos oferece ideias e não personalidades para seguir?

Tem gente, como o Sergio Aleixo, por exemplo, que acha que o Espiritismo se resume a Kardec. Eles defendem aquilo que eles chamam de “pureza doutrinária”.

Eles defendem o indefensável, pois não existe essa tal pureza doutrinária. Não existe por um motivo muito simples: A Doutrina não é pura. Como é que uma Doutrina produzida por mentes impuras como as nossas vai ser uma Doutrina pura?

A obra de Kardec está cheia de falhas. Dá para escrever um livro só com as contradições, as inconsistências, os conceitos ultrapassados, as ideias equivocadas e até absurdas de Kardec.

Todos nós temos qualidades e defeitos. Todos nós, sem exceção. Kardec tinha mais qualidades do que defeitos. Mas também tinha defeitos, e nós não podemos mascarar esses defeitos em defesa da Doutrina. Isso é ridículo – e criminoso!

Porque agindo assim nós estamos induzindo as pessoas ao erro; estamos induzindo as pessoas a acreditar na infalibilidade da Doutrina e dos seus grandes nomes; estamos induzindo as pessoas a pensar que nós já encontramos a verdade e que basta ouvir palestrinha e “estudar Kardec” para evoluir.

Esse endeusamento de Kardec é uma coisa de dar vergonha. Quantas vezes você entrou num centro espírita e se deparou com o famoso quadro de Kardec na parece?

E as alcunhas que repetem sem cessar? O insigne codificador; o mestre lionês…

Kardec foi um grande homem, sem dúvida alguma. Um homem inteligente, com uma grande força de vontade, com uma capacidade de trabalho admirável – um homem corajoso, por enfrentar os preconceitos da sociedade da época; e um homem bom: Kardec deixa perceber, na leitura das suas obras, que ele era um homem de boa índole, um homem bem intencionado.

Mas as ideias estão acima das personalidades. Então nós temos que defender ideias, não personalidades.

E Kardec, embora tivesse algumas ideias além do seu tempo, também tinha ideias atrasadas e equivocadas, como a imensa maioria das pessoas da sua época – e como nós temos até hoje.

As acusações de racismo em relação a Allan Kardec se baseiam principalmente em dois ensaios produzidos por ele: “Perfectibilidade da raça negra”, na Revista Espírita de Abril de 1862, e a “Teoria do Belo”, que foi escrito por ele, mas só foi publicado depois da sua morte nas suas Obras Póstumas.

O que Kardec expõe nesses ensaios está estritamente de acordo com a Ciência da época. Kardec era um homem de Ciência, acompanhava as tendências e novidades da Ciência. Eu já demonstrei, neste artigo, que Kardec alterou algumas questões da 1º para a 2º edição de O Livro dos Espíritos para concordar com o livro A Origem das espécies, de Darwin, que foi lançado justamente no intervalo entre a 1º e a 2º edições de O Livro dos Espíritos. A Ciência da época pregava que os europeus eram superiores. Isso não é ideia de Kardec, o que ele fez foi aceitar essa ideia vigente na época.

Aqui é preciso fazer um aparte para tratar dos detratores do Espiritismo. Tem muitas pessoas, no Brasil, que têm como principal objetivo detratar o Espiritismo, falar mal do Espiritismo.

Como eles não têm muito o que falar do Espiritismo, até porque em sua maioria são pessoas intelectualmente frágeis, eles procuram atacar pessoas caras ao Espiritismo – principalmente Chico Xavier e Allan Kardec. Isso é uma tática entre os fundamentalistas bíblicos. Nos seus fóruns de discussão eles aconselham os canditados a detrator a falar mal de Chico e Kardec para desestabilizar o apologista espírita.

O que esses seres débeis de imaginação têm que saber é que praticamente todas as pessoas pensavam como Kardec na época. Se eles fossem intelectualmente honestos, eles iriam pesquisar as falas dos padres e pastores da época e constatariam que o pensamento a respeito das raças era o mesmo. A Ciência comete erros, por que ela é produzida por homens falíveis.

– Se a opinião de Kardec sobre os negros era a opinião vigente na época, qual é o erro de Kardec?

Ora, o erro dele é acreditar cegamente na Ciência. Eu disse há pouco que Kardec era um homem além do seu tempo. Era um pouco, não muito. Se fosse muito além do seu tempo, suas conclusões seriam outras.

Mas o erro de Kardec não foi apenas acreditar cegamente na Ciência. O erro dele – que aliás é um erro em que o Divaldo incorre algumas vezes – foi se meter a falar de algo que não conhece. Kardec vivia na França, Kardec não conhecia pessoas negras. O que um francês do século XIX sabia sobre os negros era o ponto de vista dos europeus que colonizavam a África (na verdade, eles invadiram a África), e dos escravocratas das Américas – ou seja, ele tinha notícias absolutamente distorcidas e tendenciosas sobre os negros.

Apenas um rápido exemplo de outra bobagem dita por Kardec sobre um assunto com o qual ele não tinha muita intimidade:

Questão 380 de O Livro dos Espíritos:

Abstraindo do obstáculo que a imperfeição dos órgãos opõe à sua livre manifestação, o Espírito, numa criancinha, pensa como criança ou como adulto?

“Desde que se trate de uma criança, é claro que, não estando ainda nela desenvolvidos, não podem os órgãos da inteligência dar toda a intuição própria de um adulto ao Espírito que a anima. Este, pois, tem, efetivamente, limitada a inteligência, enquanto a idade lhe não amadurece a razão. A perturbação que o ato da encarnação produz no Espírito não cessa de súbito, por ocasião do nascimento. Só gradualmente se dissipa, com o desenvolvimento dos órgãos.”

Comentário de Kardec:

“Há um fato de observação, que apóia esta resposta. Os sonhos, numa criança, não apresentam o caráter dos de um adulto. Quase sempre pueril é o objeto dos sonhos infantis, o que indica de que natureza são as preocupações do respectivo Espírito”.

Como nós sabemos, Kardec não tinha filhos; provavelmente não convivia com crianças. Kardec fala como se os sonhos da criança fossem imaturos – ou, como ele diz, “pueris”, e os sonhos dos adultos fossem maduros. Eu, particularmente, sempre observei meus sonhos e não faço essa distinção. O mesmo posso dizer em relação aos meus filhos.

Kardec, muito provavelmente, não conhecia negros e não convivia com crianças. Por outro lado, Kardec parece ter sido muito bem casado, com uma mulher com quem tinha grande afinidade. E nós vemos, ao longo da sua obra, que ele tinha uma visão de vanguarda em relação às mulheres, uma visão muito avançada para o seu tempo.

Todos nós cometemos erros quando tratamos de temas que não dominamos. Kardec não merece ser taxado de racista. Certamente, se ele vivesse hoje, teria ideias bem diferentes. No tempo em que Kardec viveu o Brasil estava em pleno regime escravocrata. E ainda nem se pensava em contestar a escravidão. Os movimentos abolicionistas no Brasil só tomaram força depois da Guerra do Paraguai.

Para finalizar:

  • É injusto taxar Kardec de racista;
  • Nenhum negro deve se sentir ofendido pelas opiniões de Kardec, pois essas eram as opiniões vigentes na época, e hoje nós sabemos que são equivocadas;
  • Não devemos defender ou assinar embaixo de tudo o que Kardec ou qualquer outra pessoa fala. Se o Espiritismo quiser sobreviver com credibilidade, vai ter que levantar o tapete da sala e começar a tirar a sujeira que foi varrida para debaixo do tapete.

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