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Falar mal dos outros

Falar mal dos outros

Falar mal dos outros é um erro nojento. “O espírita é reconhecido pelo esforço que faz para sua transformação moral e para vencer suas tendências para o mal.” Esta definição de Allan Kardec descreve aquilo que deve ser nosso propósito diário, habitual.

Um efeito colateral da busca constante pelo aperfeiçoamento é a consciência cada vez mais clara de nossas imperfeições, das falhas que cometemos indiscriminadamente, sem pensar. Não me refiro aos grandes dilemas existenciais, característicos de cada um, bagagem que cada um de nós carrega como responsabilidade sua. Falo das pequeninas coisas, picuinhas que normalmente nos passam despercebidas, mas que, quando nos habituamos ao autopoliciamento, tornam-se visíveis para nós, acionam o sinal de alerta da consciência.

Durante a maior parte da vida tentei ser conciliador, quase sempre sem sucesso e muitas vezes sem muita ênfase. O ser humano, pelo menos a classe à qual pertenço, tem o costume pérfido e grotesco de falar dos outros pelas costas. Já me causou muito desgosto ouvir um amigo ou colega falando mal de outro. Depois esse outro fala mal do um. E seria ingenuidade pensar que ambos não falam mal de mim. Muitas vezes tentei evitar, contrabalançar os defeitos apontados com qualidades notórias ou nem tanto, mas a verdade é que nunca me empenhei realmente para isso.

A verdade é que esse é um costume tão arraigado à sociedade que chega a ser bem aceito, e não é tão simples dizer a todos que se quiserem falar mal dos ausentes que o façam em suas respectivas presenças. Certamente todos se melindrariam e quadruplicariam a falação relativa a mim. Isso se não se ofendessem abertamente com tamanha desfeita.

Sei que há pessoas que lidam melhor com esse tipo de situação; são pessoas com tato, que sabem dizer as coisas com brandura e um sorriso nos lábios, seja o assunto que for; pessoas que não se exaltam com facilidade e têm o dom da persuasão. Ainda não é o meu caso. Mas eu chego lá. Já é uma grande coisa eu não ter esse hábito. Quer dizer, não tão arraigado. Um dia desses tive uma recaída. Talvez em outro período de minha vida isso passasse despercebido, ou, se percebesse, não se tornaria num incômodo. Mas tenho me policiado, prestado atenção aos meus pensamentos, palavras e ações. Nesse dia escapou. E não foi nada grave; também não estou morrendo de remorso. Mas percebi. Notei um erro, um erro que recrimino nos outros e que me dá nojo. É que às vezes adotamos, mesmo que não deliberadamente, um estado de espírito em que nos permitimos extravasar um pouco de nossas mazelas, como se tivéssemos o direito de perturbar o ambiente com pensamentos desarmoniosos ou de fazer os ouvidos alheios de penico.

Sejamos mais fortes que isso. Tenhamos sempre em mente que somos pequenina peça de uma engrenagem colossal. Isso o torna menos importante aos seus próprios olhos? Saber que você é um entre incontáveis outros como você o diminui? Claro que não. Somos perfectíveis, temos uma infinidade de possibilidades dentro de nós, uma melhor que a outra. Façamos a nossa parte. Se o melhor de mim é pouco, que ao menos eu me detenha antes de praticar o que há de menos bom em mim. Não é porque um mau hábito é aceito sem discussão que temos o direito de compartilhar dele. Rebaixamos-nos, ao fazer algo que intimamente execramos. E nada é mais degradante do que pegar nojo de si mesmo.