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O que Jesus ensinou sobre a caridade?

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O que Jesus ensinou sobre a caridade? A Doutrina Espírita adota o lema “fora da caridade não há salvação”. Você sabia que a palavra “caridade” não está no Evangelho? Não há nenhuma palavra específica para designar a caridade no Evangelho. Se quisermos entender o ensino de Jesus a respeito da caridade, então, precisamos compreender o conceito de caridade proposto por Jesus.

Este é o propósito deste vídeo: Ir direto à fonte, direto à origem. Se a Doutrina Espírita diz que fora da caridade não há salvação; e se esta mesma Doutrina nos apresenta Jesus como nosso modelo e guia, temos que saber o que, realmente, Jesus ensinou a respeito.

Assista e tire suas próprias conclusões! Se preferir, leia o texto do vídeo logo abaixo:

O que você entende por caridade? No meio espírita se fala muito a respeito da caridade – o próprio lema do Espiritismo é “fora da caridade não há salvação”. Mas será que nós compreendemos realmente o alcance da caridade e a sua importância?

Sem dúvida nenhuma a base que nós temos para falar sobre caridade é o Evangelho. E, como todos nós sabemos, o Evangelho foi escrito originalmente em grego. Então, antes de mais nada, convém dizer que não existe, no texto original grego do Evangelho, nenhuma palavra específica para designar a caridade.

A Vulgata Latina (que é a tradução da Bíblia para o latim feita por São Jerônimo, na virada do século IV para o século V) traduz algumas vezes o substantivo grego ágape que quer dizer “amor”, para o substantivo latino cáritas, que quer dizer “caridade”. É o caso, por exemplo, do capítulo 13 da primeira epístola aos coríntios, que é um belo poema de autoria do apóstolo Paulo – reproduzido no Evangelho segundo o Espiritismo. Lá está como “caridade”; na verdade ele está falando de “amor”.

E a curiosidade é que no grego existem três palavras para designar o amor: eros, philos e ágape – as duas últimas presentes no Novo Testamento. Jerônimo prefere utilizar-se de uma terceira palavra: Cáritas, traduzida para o português como “caridade”, justamente por encontrar nessa palavra um sentido mais próximo do ensino proposto por Jesus.

Por que essa confusão de conceitos? Por que nós não encontramos, no texto original grego do Evangelho, nenhuma palavra específica para designar a caridade?

Porque não existia o conceito de caridade como nós entendemos hoje. Não poderia haver uma palavra específica para designar um conceito que não existia antes de Jesus.

É verdade que quase todas as antigas religiões pregam de alguma forma as boas ações, o bem. O budismo recomenda as boas ações; o Bhagavad Gita aponta as boas ações como um caminho para a iluminação; o próprio Antigo Testamento, as antigas escrituras, que eram a lei vigente no tempo de Jesus naquela região em que Jesus viveu, enaltece as boas ações em benefício do próximo.

Mas em toda parte, antes de Jesus, as boas ações eram: ou um meio de obtermos recompensas materiais ou espirituais; ou um caminho para a iluminação, e Jesus nos apresenta a caridade não como um caminho para a iluminação, mas como o próprio mecanismo de auto-iluminação através do qual, iluminando a nós mesmos, temos a possibilidade de iluminarmos igualmente ao nosso próximo. É nesse sentido que Jesus nos recomenda: “brilhai a vossa luz diante dos homens, para que os homens vejam as vossas boas obras e glorifiquem a Deus”.

Particularmente não concordo com o uso indiscriminado da palavra “glória” e seus derivados no Evangelho. A palavra “glória” no Evangelho é quase sempre uma má tradução apressada do substantivo grego doxa. Em vez de “glorifiquem” a Deus seria mais adequado “reconheçam” a Deus. Deus age sobre os espíritos através dos espíritos – quando nós trabalhamos em benefício do próximo nós somos instrumentos de Deus, somos veículos de manifestação de Deus. Deus age através de nós, por isso Deus é reconhecido através de nós.

Eu disse que quando nós fazemos o bem, quando nós fazemos a caridade, nós estamos trabalhando em benefício do próximo – caridade é isso, caridade é trabalho. A melhor definição de caridade é justamente “o amor em ação”, e essa ação é trabalho.

Se a caridade é amor e se a caridade é ação, de acordo com a Doutrina, então, a caridade está vinculada a duas leis: A lei de justiça, de amor e de caridade; e a lei de trabalho.

No que concerne à lei de trabalho nós vemos na questão 675 de O Livro dos Espíritos que “toda a ocupação útil é trabalho” – tudo aquilo de que se ocupe o espírito deliberadamente, com finalidade útil, é trabalho. Se essa utilidade visar ao próximo, esse trabalho é caridade; e se nós exercermos esse trabalho de boa vontade e com prazer, tanto melhor para nós.

Lembramos as palavras de Narcisa a André Luiz no primeiro dia de trabalho de André Luiz em Nosso Lar, quando ele resolveu permanecer trabalhando durante a noite nas câmaras de retificação: “Apaixone-se pelo seu trabalho, embriague-se de serviço útil, somente assim atenderemos a nossa edificação eterna”.

A questão seguinte, 676, faz uma pergunta: Por que o trabalho se impõe ao homem? A resposta é mais ou menos longa, mas ela traz duas questões muito interessantes: primeiro, que o trabalho é consequência da natureza corpórea do homem; e segundo, que o trabalho é expiação.

Quanto a ser consequência da nossa natureza corpórea: no nosso estágio evolutivo nós ainda não conseguimos conceber o espírito sem forma, então para nós o espírito sempre terá corpo, o espírito sempre terá algum invólucro, por mais sutil que seja. Não podemos conceber o espírito sem forma, mesmo que essa forma seja como uma luz, uma chama, uma fagulha, mesmo assim ainda é uma forma.

Nós vemos então que o trabalho não é consequência da natureza corpórea do homem encarnado, o trabalho é consequência da natureza do espírito – e, voltando ao exemplo de André Luiz, nós vemos que ele, espírito (pois já desencarnado, sem o corpo físico) só sentiu alegria, realmente, em Nosso Lar, quando pode trabalhar.

E quanto ao trabalho ser expiação: O trabalho não é expiação nem aqui nem na China! O trabalho pode, eventualmente, ser convertido temporariamente num instrumento de expiação, o que é diferente.

Sabemos que existem trabalhos em condições penosas, em condições sub-humanas, e que determinados trabalhos para determinadas pessoas podem chocar-se com o seu orgulho, tornando-se então um meio de expiação.

Mas o trabalho em si mesmo, o trabalho em sua própria natureza, só poderia ser considerado expiação para um espírito vagabundo – e a verdade é que faz milênios que nós, vagabundamente, interpretamos mal a natureza do trabalho, a começar pelas exposições, pelos ensinamentos a respeito do trabalho que nós encontramos nos textos sagrados. Na própria Bíblia, lá no Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, quando está escrito que Adão e Eva comeram o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, lá também é dito que Deus os condenou.

Na verdade Deus não condenou, ele apenas declarou – mas está dito que Deus condenou o homem a comer o pão com o suor do seu rosto. Então a partir daí o trabalho já é visto como castigo. Mas o que é a árvore do conhecimento do bem e do mal? Ela simboliza o livre arbítrio. O fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal nada mais é do que a capacidade de discernir, a liberdade de escolha – e desde que o homem exerça o livre arbítrio ele adquire a capacidade de se tornar co-creador com Deus, a partir daí o homem tem duas escolhas: dentro do caminho de Deus ou fora do caminho de Deus.

Se ele estiver fora do caminho de Deus ele está satânico, ele está diabólico, está se metendo a antagonista, a adversário de Deus, pois são esses os significados da palavra satanás e da palavra diabo – que é a tradução de satanás para o grego.

E se o homem estiver dentro do caminho de Deus, ele está trabalhando no desenvolvimento da creação, e o trabalho que ele exerce em benefício do próximo o caracteriza como instrumento de Deus, veículo de manifestação de Deus.

O trabalho é visto como castigo porque antes de Adão e Eva comerem o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, eles supostamente não trabalhavam, viviam no jardim do Éden sem fazer nada.

Acontece que tudo na natureza trabalha, mesmo as plantas e os animais trabalham, embora não conscientemente. Jesus cita as aves do céu e os lírios do campo: As aves do céu não plantam e não ajuntam em celeiros, os lírios do campo não tecem e não fiam.

Eles, por não terem consciência, estão perfeitamente integrados às leis de Deus, e então eles são supridos em suas necessidades sem precisarem se preocupar com isso. Mas nós, espíritos, que temos livre arbítrio, temos que nos integrar conscientemente às leis de Deus, trabalhando no limite de nossas forças.

Em relação à lei de justiça, de amor e de caridade, a questão 879 do livro dos espíritos pergunta: Qual seria o caráter do homem que praticasse a justiça em toda sua pureza?

A pergunta fala em justiça, praticar a justiça, mas temos que entender que a justiça a que se refere Jesus não tem nada a ver com a justiça dos homens. Aliás, a palavra grega dikaiosunen, traduzida com “justiça”, seria melhor traduzida como “justeza”, pois na verdade é de justeza que se trata, do ajustamento às leis de Deus – essa é a justiça que se refere Jesus.

Mas a resposta dos espíritos a essa pergunta de Allan Kardec é que o caráter do homem que praticasse a justiça em toda sua pureza (que é o ajustamento às leis de Deus) seria o caráter do verdadeiro justo – a exemplo de Jesus – por que esse homem também praticaria o amor ao próximo e a caridade, sem os quais não há verdadeira justiça.

Eu disse no começo que não existe no texto original grego do Evangelho nenhuma palavra específica para designar a caridade. Mas tem uma palavra grega nos textos evangélicos que transmite perfeitamente o sentido de caridade proposto por Jesus.

Logo depois de nos contar a parábola do bom samaritano, que é um exemplo clássico de caridade, Jesus pergunta ao seu interlocutor: “Quem parece ser o próximo do homem que havia caído nas mãos dos salteadores (do homem que havia sido auxiliado, socorrido pelo bom samaritano)?”

E a resposta é: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. “Usou de misericórdia” é a tradução de poiesas to eleos – fez o eleos. Eleos é normalmente traduzido como misericórdia, piedade, compaixão – mas o seu sentido é de caridade.

E nós temos a comprovação do uso dessa palavra com sentido de caridade no sermão da montanha: “guardai-vos de exercer a vossa justiça diante dos homens a fim de serdes vistos por eles; doutra sorte não tereis galardão junto de vosso pai celeste. Quando, pois, deres esmola, não toque trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, a fim de serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam a recompensa. Tu, porém, quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita, para que tua esmola fique em secreto, e teu pai, que vê em secreto, te recompensará”.

“Quando deres esmola”: A palavra traduzida como “dar esmola” é eleemousunem, um verbo derivado de eleos, a palavra que citamos agora há pouco. Então: “quando deres esmola” = “quando agires com misericórdia”, “quando agires com piedade”, “quando agires com compaixão”. Poderíamos traduzir perfeitamente como “quando agires com caridade”, “quando fizeres a caridade”, “quando praticares a caridade”.

Jesus recomenda que quando nós agirmos em benefício do próximo, que então não toquemos a trombeta diante de nós mesmos. A trombeta a que Jesus se refere era um chifre de carneiro, o shofar. O shofar era tradicionalmente usado pelos israelitas para anunciar acontecimentos especiais, como, por exemplo, a coroação de um rei; a abertura de uma festa religiosa; ou em tempos de guerra, uma convocação para a batalha, ou o aviso de uma invasão inimiga – mas sempre usado para anunciar acontecimentos especiais.

Ao nos recomendar, então, que não toquemos a trombeta diante de nós mesmos quando agirmos em benefício do próximo, Jesus está nos ensinando que o trabalho que exercemos em benefício do próximo (que nós podemos chamar de caridade) isso não pode ser visto como um acontecimento especial, e sim como uma decorrência natural da nossa natureza de filhos de Deus. Quando nós fazemos a caridade, nós agimos como instrumentos de Deus, veículos de manifestação de Deus, e como tal, nós somos naturalmente recompensados por estarmos em harmonia com Deus.

Quem faz a caridade com ostentação, querendo que todos vejam o seu ato e o admirem por isso, encontra, neste próprio ato e nas consequências deste ato, a sua recompensa.

É uma questão de foco: o pensamento de quem faz a caridade por amor à própria caridade está agindo de conformidade com as Leis de Deus, está cumprindo o papel delegado por Deus, que é o de suprir as necessidades das criaturas.

O pensamento de quem faz a caridade visando o reconhecimento público está voltado para si mesmo, para o seu ego, para o seu personalismo, está adorando a si mesmo, admirando-se, enaltecendo-se, e encontra a sua recompensa na própria sensação provocada por esse pensamento e a sua ação consequente.

Jesus não está nos proibindo a prática de boas ações diante dos homens: isso seria insensato – e até contraditório com a recomendação que ele faz quando nos diz: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que os homens vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso pai que está nos céus”.

Ora, se é para fazermos brilhar a nossa luz diante dos homens, para que os homens vejam as nossas boas obras (ou os nossos bons trabalhos – a palavra grega ergon pode ser traduzida como “obra”, “ação” ou “trabalho”), não é para deixarmos de fazer o bem diante dos homens, pelo contrário. O que nós temos que evitar, isso sim, é fazer o bem a fim de sermos vistos pelos homens, ou seja, com a finalidade precípua de sermos vistos pelos homens. O interesse que nos move a fazer o bem não pode ser o interesse de sermos vistos.

Jesus recomenda também que nossa mão esquerda ignore o que faz a nossa mão direita.

Por que Jesus chamou a atenção para isso? Sem dúvida nenhuma é mais meritório alguém que faz o bem, mesmo com ostentação, do que quem não faz bem nenhum. Para quem recebe o favor as vezes pouco importa se quem está fazendo aquele favor quer aparecer ou não. Para quem tem fome não tem grande importância se quem lhe dá um pedaço de pão está fazendo isso para aparecer, para ser reconhecido, por ostentação. Um pedaço de pão é um pedaço de pão. Um pedaço de pão mata a fome. E o que o faminto precisa, naquele momento, é matar a fome.

Mas quem faz esse bem colhe a sua recompensa através do reconhecimento de quem recebeu o favor ou de quem presenciou o favor. E se a pessoa que faz esse bem não recebe nenhum reconhecimento, nenhum elogio, nenhuma bajulação, ela se revolta, ela desanima, e já acha que não vale a pena ajudar ninguém, porque para ela são todos uns mal agradecidos. É que essa pessoa ainda faz o bem em troca do prazer gerado pelo reconhecimento, e o único bem real, verdadeiro, íntegro, é o bem que se pratica espontaneamente, sem calcular. Esse fica registrado pela consciência, esse nos dá a paz, a sensação maravilhosa do dever cumprido, a alegria de existir, a gratidão a Deus – que sempre nos dá novas chances, novas oportunidades de nos redimirmos permitindo a Sua manifestação através de nós.

“Para que a tua esmola fique em secreto, e teu pai, que vê em secreto, te recompensará”: quando fazemos um bem – seja um favor, um serviço, um gesto, uma oração – devemos fazê-lo em secreto, ou seja, de nós para conosco, como uma coisa íntima e espontânea. O Pai, que vê em secreto, é a nossa consciência. Nossa consciência está sempre observando, nada escapa à consciência.

Vários manuscritos antigos trazem, no final desta passagem, en to phanerô, que quer dizer “manifestamente”. O que fazemos en to kriptô, Deus nos devolve en to phanerô. Literalmente, o que fazemos no escondido, Deus nos devolve no manifesto, ou, o que fazemos no escuro, Deus nos devolve no claro. Uma tradução mais literal seria assim: “E teu pai, que vê no escondido, te devolverá manifestamente” – ou seja, Deus, que vê o que se passa em nosso íntimo, devolve as nossas ações manifestamente, claramente, visivelmente.

Jesus está afirmando que Deus devolve as nossas ações conforme elas são geradas em nosso íntimo. Nossas ações, antes de serem manifestadas, são pensamentos. Tudo começa pelo pensamento. Nossos pensamentos determinam o que Deus nos há de entregar.

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