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A fé e a razão na Doutrina Espírita

sócrates e platão
O Espiritismo é a fé renovada

ARTIGO DE AUTORIA DE ANA BLUME

A fé, destituída da razão, não serve para muita coisa. A fé renovada, trazida a nós pela Doutrina Espírita, transcende a racionalidade.

Tomando como ponto de partida o mito de origem da humanidade retratado no Evangelho, ou seja, a história de Adão e Eva e sua expulsão do paraíso edênico, pode-se afirmar que a Razão é o primeiro impulso humano. É o desejo do conhecimento, da ciência, a vontade de saber tudo através de seus próprios meios. Por si só, tal atitude não tem nada de repreensível, e a “expulsão do paraíso” não significa a repreensão – antes, ela significa o afastamento do homem da fé cega, para que, após adquirir o conhecimento necessário, retorne à fé, mas a uma nova fé.  

A fé, destituída da razão, não serve para muita coisa – sem o conhecimento de causa, ela se assemelha mais à submissão e talvez até a uma certa imaturidade espiritual. A fé renovada, trazida a nós pela Doutrina Espírita, acontece através da transcendência da própria racionalidade. 

O espírito atinge a maturidade da fé a partir do momento em que, adquirido certo grau de conhecimento, que em muitos casos pode empurrá-lo na direção do infértil ceticismo, ele o transcende e cria a coragem e a humildade para crer naquilo que, no meio científico materialista, é julgado “inviável”. A razão é necessária, pois o conhecimento e o amadurecimento intelectual são necessários, mas tornar-se prisioneiro da matéria e do “ver para crer” é uma falha tão grande quanto a fé cega, tão reprovada pelos mesmos meios científicos. 

Os homens foram colocados no mundo (ou “afastados do paraíso”) para que aprendam por si mesmos, seguindo o mesmo princípio do conhecimento empírico para que, só então, reconheçam com humildade que a “razão pura” tem limites: ela abrange certos graus de conhecimento, mas é incapaz de transcender a matéria. 

Segundo Platão, a Verdade não pode ser alcançada somente através do exercício da dialética, que se baseia no princípio de que toda hipótese encontrará sua antítese e então, a partir da união das duas, será gerada uma tese, que se transformará numa hipótese, encontrará sua antítese, e assim por diante – sendo esse o princípio de todo pensamento racional: para Platão, a dialética pode explicar o mundo até certo ponto e, após isso, é preciso elevar-se acima dela e, através de Eros (o Amor), encontrar a Verdade. 

O Eros de que fala Platão é precisamente a fé renovada da qual falamos.  

Não se trata de abandonar a capacidade de pensamento crítico – muito pelo contrário; o pensamento crítico e racional é em realidade um degrau necessário para a ascensão ao verdadeiro pensamento, que se desliga da matéria para superá-la. 

Da mesma forma, o corpo é necessário para a vida na Terra, e reconhecemos suas limitações: ele precisa de alimento, descanso e saúde para funcionar, o que impossibilita sua autonomia; a razão, também, não é autônoma. Assim como o espírito imortal se aprimora através da vivência terrena, o pensamento se aprimora através da razão – e a consciência da vida espiritual, além da matéria, é exatamente a consciência da fé, que é o pensamento autônomo, completo, que articula o conhecimento terreno com o conhecimento espiritual: a maturidade última do pensamento.  

Ana Blume é estudante de Sociologia e espírita desde os 7 anos – Idealizadora do blog “O Evangelho Segundo o Espiritismo Simplificado”

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7 Comentários

  1. Everton, este artigo não foi escrito por mim. Concordo parcialmente com a autora do texto, mas não acho, de modo algum, que você tenha sido ingrato ou hipócrita por esperar por uma demonstração perceptível pelos sentidos físicos daquilo que você acreditava por meio da razão e da lógica.
    Quanto à segunda pergunta, não acho que ninguém precise ser religioso para espiritualizar-se. Jesus não nos ensinou nenhuma religião. Não precisamos de religião para seguirmos os ensinamentos de Jesus. A religião só é necessária, ainda, como modo de congregar as pessoas em torno de um mesmo objetivo. Um dia a religião fará parte das nossas vidas naturalmente, sem necessidade de manifestações exteriores.

  2. Fui criado em uma religião tradicional, cresci escutando asneiras do tipo: “Jesus foi crucificado para que nossos pecados fossem perdoados”… entre outras. É impressionante como uma grande quantia de pessoas acredita em teorias que não tem o menor fundamento lógico.
    Quando eu era adolescente fui em busca de conhecimento, não queria acreditar que a hora do óbito era o fim de tudo, fui atrás de explicação em livros dos mais diversos tipos de religião, considerei todos sem lógica, sem nexo, sem cabimento… Quando eu li a obra de Allan Kardec encerrei minha busca, é a única explicação lógica para as coisas. Se eu não fosse espírita, com certeza seria ateu!
    Virei um estudioso da Doutrina Espírita, mas agora é que vem a parte interessante: Mesmo compreendendo e aceitando, ainda assim eu duvidava, pensava que o próprio Allan Kardec poderia ter sido enganado, que uma carta psicografada poderia ser uma fraude… Eu queria uma prova, uma manifestação, um objeto mexendo sozinho, um polstergeist… qualquer coisa, ver com os próprios olhos.
    A prova veio quando uma criança da minha família teve uma manifestação mediúnica. A partir daí eu passei a não duvidar do que fala a Doutrina. A parte do artigo que fala: “tornar-se prisioneiro da matéria e do “ver para crer” é uma falha tão grande quanto a fé cega”, tocou-me e muito, mais do que todos os artigos que eu li na página. A partir daí surgem duas perguntas;
    Primeira – Será que outras pessoas pensam como eu? Será que fui hipócrita e ingrato ao pensar dessa forma?
    Segunda – Li certa vez que existe fila para encarnar na terra, não sei se é verdade. Ocorre que a grande massa se diz seguidora da religião A, B ou C, mas na verdade elas não seguem nada, elas comem, dormem, olham a novela e vão desencarnar dessa forma. Então eu penso: talvez nessa passagem por aqui elas não pratiquem religião nenhuma, mas desenvolvam o amor, a gratidão, vençam a inveja… Será que isso não teria em si um valor maior do que conhecer alguma doutrina religiosa?

  3. Pelo estudo do Espiritismo eu encontrei a fé raciocinada. Nossa, isso foi incrível, comecei a estudar muita coisa sem uma norma disciplinar, lendo vários livros, porém hoje eu vejo que o importante não é a quantidade de livros e sim a qualidade, para mim os melhores autores espíritas são o Mestre Allan Kardec e o Mestre Leon Denis, procuro sempre estudar esses Livros luminosos. O Espiritismo pela fé Racional explica que não exitem milagres e nem o sobrenatural, todos os fenômenos psíquicos e físicos que existem são fenômenos naturais, regulados por Leis naturais, eternas e imutáveis. Pela fé racional espírita, vamos ver e sentir que o Deus bíblico não existe, o Deus que castiga, que perdoa, que distribui favores, que realiza milagres, é uma criação humana. Vamos entender que a proteção divina milagrosa não existe, a proteção espiritual quem faz é a própria pessoa conforme seus pensamentos, sentimentos e atitudes, vamos atrair bons ou maus espíritos, conforme as nossas condições morais e mentais, como disse o Doutor Bezerra de Menezes, é na INTEIREZA MORAL que está a defesa contra os maus espíritos, não fiquei mais pedindo milagres para Deus, porque sei que eles não existem, tudo na vida é uma questão de Luta e esforço pessoal, isso é uma pequena mostra da fé Racional, que consegue tirar essas ideias místicas da nossa mente, outro exemplo, pela fé raciocinada, sabemos que o uso de velas, incenso, amuletos, talismã, palavras sacramentais, sinais cabalísticos, roupas brancas, imagens de anjos ou santos, é tudo derivado do misticismo religioso da fé cega e emocional. Eu entendo a fé Racional dessa forma, disso tudo fica sempre a vontade de praticar o Bem as Virtudes e a Caridade, porque passamos a entender pela inteligência a necessidade de praticar o Bem sem visar recompensas. Morel, muito bacana seu trabalho, eu tenho um pouco de inveja, gostaria de fazer algo parecido, estudar o Espiritismo e o Espiritualismo é algo incrível. Eu também procuro estudar obras espiritualistas da Teosofia, Racionalismo Cristão e alguma coisa da Maçonaria, eles também têm grandes ensinamentos morais e espirituais, tudo que tiver uma base racional e moral elevada, vale a pena estudar, como diz a Maçonaria, devemos buscar a Luz e não ficarmos presos aos condutores da Luz. Nossa, isso é profundo e belo, no Racionalismo Cristão encontrei ensinamentos Morais muito elevados e nobres, eles falam que pelo Pensamento positivo, elevado e firme no Bem e na conduta moral reta, vamos afastar qualquer espírito obsessor e qualquer trabalho de magia negra ou macumba. Um abraço, valeu.

  4. Olá (:

    Obrigada pelos comentários – essa questão ainda é algo que estou eu mesma tentando comprender, e a reflexão veio após a leitura do livro O Espírito e o Tempo, de Herculano Pires (que aliás, recomendo muito! Trata-se de uma análise histórico-filosófica da evolução da Religião). Também acho que seja uma reflexão um pouco complexa, mas conforme continuar estudando sobre o assunto, creio que serei capaz de trazer, quem sabe, uma discussão talvez não simplificada, mas talvez mais acessível – de compreensão mais fácil. Enquanto isso, a leitura do livro citado com certeza trará mais explicações!

    Fiquem com Deus!

  5. Também tive dificuldade para compreender sua reflexão. Mas tenho vínculo com pessoas de diversas denominações, espíritas, evangélicos, católicos, e a demonstração de Fé com obras, porque bem sabemos que a Fé sem obras é morta, parte muito mais daqueles que têm conhecimentos limitados, consequentemente a razão também é limitada, do que de muitos que adquiriram muito estudo, mas nos momentos das grandes provações não conseguem fazer o uso devido da Fé. Não acredito que a Fé desacompanhada da razão tenha pouco efeito, e que se trata mais de uma submissão como você colocou, vejo a submissão como um sentimento de profundo amor e renúncia à sua própria vontade, e uma entrega e aceitação à experiência vivida. Muita paz a você.

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