Estudo do Evangelho em vídeo, Vídeo

A multiplicação dos pães existiu ou é um simbolismo?

A multiplicação dos pães e peixes é considerado um dos principais milagres de Jesus. Embora sabendo que a revogação das Leis de Deus é impossível, aceitamos que Jesus possa ter realizado um fato desconhecido para nós e aparentemente milagroso. Mas será que tudo não passa de um símbolo? Este é o principal tema deste vídeo, o 12º vídeo da série de estudos sobre o Evangelho de João.

Abaixo você pode ler todo o texto do vídeo.

JOÃO 6:1-27

  1. Depois disto partiu Jesus para o outro lado do mar da Galiléia, que é o de Tiberíades.
  2. E grande multidão o seguia, porque via os sinais que operava sobre os enfermos.

Assim como hoje, a esmagadora maioria procurava Jesus em busca de solução imediata para os seus males. Poucos se ocupavam com as coisas do espírito.

Semeion (σημειων), que é traduzido como “sinais” ou como “milagres”, na verdade são símbolos. Semeion é uma marca distintiva, uma maneira de demonstrar determinada coisa.

O que Jesus oferece não são sinais, ele não precisa nos provar nada. Jesus nos oferece símbolos. O seu ensinamento profundo está aparentemente oculto por trás do véu dos símbolos.

Jesus demonstrava o seu poder – poder que todos nós temos potencialmente, pois Jesus disse que poderíamos fazer as mesmas coisas que ele fazia e até maiores (João 14:12). Não faltam exemplos de pessoas capazes de realizar curas físicas. Mas o objetivo de Jesus não era realizar curas físicas ou fazer demonstrações de poder. Jesus agia de modo que os símbolos escondidos por trás dos seus atos ficassem registrados e chegassem até nós.

  1. E Jesus subiu ao monte, e assentou-se ali com os seus discípulos.
  2. E a páscoa, a festa dos judeus, estava próxima.
  3. Então Jesus, levantando os olhos, e vendo que uma grande multidão vinha ter com ele, disse a Filipe: Onde compraremos pão, para estes comerem?
  4. Mas dizia isto para o experimentar; porque ele bem sabia o que havia de fazer.
  5. Filipe respondeu-lhe: Duzentos dinheiros de pão não lhes bastarão, para que cada um deles tome um pouco.
  6. E um dos seus discípulos, André, irmão de Simão Pedro, disse-lhe:
  7. Está aqui um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas que é isto para tantos?
  8. E disse Jesus: Mandai assentar os homens. E havia muita relva naquele lugar. Assentaram-se, pois, os homens em número de quase cinco mil.
  9. E Jesus tomou os pães e, havendo dado graças, repartiu-os pelos discípulos, e os discípulos pelos que estavam assentados; e igualmente também dos peixes, quanto eles queriam.
  10. E, quando estavam saciados, disse aos seus discípulos: Recolhei os pedaços que sobejaram, para que nada se perca.
  11. Recolheram-nos, pois, e encheram doze alcofas de pedaços dos cinco pães de cevada, que sobejaram aos que haviam comido.
  12. Vendo, pois, aqueles homens o milagre que Jesus tinha feito, diziam: Este é verdadeiramente o profeta que devia vir ao mundo.

Nos Evangelhos sinóticos a preocupação com a alimentação das pessoas parte dos seus discípulos.

Este acontecimento é narrado nos quatro Evangelhos. Mateus e Marcos narram duas multiplicações.

Nada impede que Jesus tenha multiplicado os pães. Certamente, pela sua incalculável superioridade, Jesus conhecia leis que nós não conhecemos. Mas o texto não fala em multiplicação nem em milagre.

O texto fala em cinco mil homens. Se considerarmos os Evangelhos sinóticos, temos que contar também as mulheres e crianças: mais de dez mil pessoas. Reunir dez mil pessoas naquele tempo não devia ser muito simples. Os povoados tinham cem ou duzentos habitantes. Cafarnaum ou Betsaida tinham entre mil e três mil habitantes. Teriam que esvaziar várias cidades e povoados para juntar tanta gente. 

Vimos que era perto da páscoa, época em que muitas caravanas passavam pela estrada que ligava Damasco a Cafarnaum em direção a Jerusalém para as festividades da páscoa. Isso poderia explicar o grande número de pessoas, um número extraordinário para aquele tempo e lugar.

Quando Jesus pergunta quantos pães tinham, o apóstolo André mostrou um menino que tinha cinco pães e dois peixes. Provavelmente foi do menino que partiu a iniciativa de oferecer o seu alimento – André não iria se apropriar da comida do menino. 

Jesus fala em comprar pão, mas ninguém diz que não havia comida. Alguns não tinham, mas outros certamente tinham. As pessoas que estavam na região se dirigindo a Jerusalém certamente tinham provisões, não iriam viajar sem comida. Não existia o comércio como o conhecemos hoje. Se fosse para comprar comida para toda aquela gente nem haveria onde comprar. É muito provável que algumas pessoas tivessem comida e outras pessoas não. Não faz sentido achar que naquela multidão só aquele menino tivesse comida – que, aliás, era muita comida para apenas um menino. André se referiu a um menino que se apresentou a ele, mas é impossível que em meio à multidão muitos não tivessem comida.

Logo depois disso, no versículo 30, o povo pede um sinal a Jesus: “Que sinal, pois, fazes tu, para que o vejamos, e creiamos em ti? Que operas tu?” – se Jesus tivesse acabado de multiplicar os pães, porque eles estariam pedindo um sinal?

Em seguida a este episódio Jesus caminha sobre as águas. Em Mateus e em Marcos os apóstolos têm muito medo ao vê-lo, o que também é narrado em João – se eles tivessem presenciado a multiplicação dos pães, será que ainda estranhariam alguma coisa vinda de Jesus?

Ainda em Mateus e em Marcos, os discípulos percebem que esqueceram de levar pão:

“E eles se esqueceram de levar pão e, no barco, não tinham consigo senão um pão. E ordenou-lhes, dizendo: Olhai, guardai-vos do fermento dos fariseus e do fermento de Herodes. E arrazoavam entre si, dizendo: É porque não temos pão. E Jesus, conhecendo isto, disse-lhes: Para que arrazoais, que não tendes pão? não considerastes, nem compreendestes ainda? tendes ainda o vosso coração endurecido?” (Marcos 8:14-17)

Jesus fala de fermento de forma figurativa, eles entendem que ele falava de fermento material e Jesus os repreende – se tivesse havido uma multiplicação milagrosa, porque Jesus perguntaria a eles se eles ainda não entenderam? Se havia algo a ser entendido, era um simbolismo – um milagre teria falado por si mesmo. E porque eles estavam com os corações endurecidos? Se Jesus tivesse feito sinais para o povo (como teria sido o milagre dos pães) eles não deveriam estar contentes?

Eles ficaram com os corações endurecidos justamente porque os fariseus pedem um sinal a Jesus e Jesus não faz nenhum sinal. Por isso Jesus os alerta para terem cuidado com o fermento dos fariseus.

Nota-se, ainda, que eles esqueceram-se de levar pão. Se eles se esqueceram de levar pão, é porque era costume das pessoas carregarem pão consigo (ninguém esquece de fazer algo que não se faz, só é possível esquecer algo que se faz), então certamente muitos da multidão tinham pão.

O ensinamento de Jesus é todo espiritual. Imaginarmos um milagre (ou um fenômeno desconhecido, considerado como milagre) é muito menos provável do que imaginar que o que realmente aconteceu foi que, seguindo o exemplo do menino que deu os seus cinco pães e dois peixes, e estimulados pela ação decisiva e contagiante de Jesus, cada um dos que tinham alimento tenha fugido ao seu costume de avareza e egoísmo e repartido o seu pão com o próximo. Todos repartiram o que tinham, todos comeram, todos se fartaram e ainda sobrou. 

Jesus disse noutra ocasião, para um jovem que queria segui-lo, que repartisse os seus bens entre os pobres (Lucas 18:22) – a solidariedade é um ensino básico de Jesus. Isso está claro nesta passagem de Mateus:

“Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e foste me ver. Então os justos lhe responderão, dizendo: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber? E quando te vimos estrangeiro, e te hospedamos? ou nu, e te vestimos? E quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos ver-te? E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. (Mateus 25:35-40)

É isso que parece ter havido aqui. Um fenômeno de solidariedade espontânea, de amor ao próximo, de entendimento, como nunca havia acontecido antes. Particularmente, acho isso muito mais grandioso do que um fenômeno físico.

Esse episódio conhecido como a multiplicação dos pães nos deixa outra inestimável lição: a multiplicação dos nossos recursos de trabalho em benefício do próximo.

O pouco que temos a oferecer de nós mesmos é multiplicado pela espiritualidade. Nossa boa vontade para com o próximo encontra nos bons espíritos o amparo necessário.

O auxílio divino está sempre à nossa disposição. Mas para recebê-lo precisamos contribuir com a nossa parte, por menor que seja.

Em Mateus 15:34 Jesus pergunta aos discípulos: “Quantos pães tendes?” – Jesus não pergunta quantos pães seriam necessários para saciar a fome da multidão. Quer saber, apenas, com quanto podemos contribuir.

Os pães que foram oferecidos eram pães de cevada. A cevada era o alimento do pobre, era comida simples, usada muitas vezes para alimentar os animais. Assim é nossa relação com Deus e com a espiritualidade. Pedimos, em nossas orações, o pão espiritual, para nós e para os que nos cercam. Sempre somos atendidos, desde que estejamos dispostos a contribuir com as nossas migalhas, a fazer a nossa parte, a dar o melhor de nós mesmos – mesmo que o que tivermos a oferecer seja pouco e de pouca qualidade.

Pedimos paz de espírito e proteção para a nossa família, pedimos que possamos, como instrumentos de Deus, emanar energia positiva e vontade de viver, que possamos esclarecer a todos que estejam receptivos ao esclarecimento, pedimos força e paz a todos os que nos leem, que nos ouvem, que nos assistem, pedimos boa disposição e alegria a todos aqueles com quem convivemos, em todos os nossos círculos sociais.

Sabemos que conseguimos funcionar como instrumentos de Deus quando estamos impregnados de boa vontade e mantemos à risca a disciplina a que nos propusemos.

Mas, se nos damos o direito de nos sentir cansados, ou desanimados, ou entediados, já não estamos contribuindo com as nossas migalhas, já não temos os cinco pães e dois peixes para dar início ao processo de multiplicação de recursos. E, se não contribuímos com a nossa parte, já não temos o direito de pedir ajuda, já não somos instrumentos.

Repito que não duvido, de modo algum, que a multiplicação possa ter ocorrido. Mas não é essa a ideia que eu percebo no texto. A ideia central dessa narrativa é o alimento que todos têm em comum, que é o Cristo. O Cristo é a própria vida, e o Cristo está dentro de cada um de nós. Em contato com o Cristo, todos se alimentam espiritualmente.

  1. Sabendo, pois, Jesus que haviam de vir arrebatá-lo, para o fazerem rei, tornou a retirar-se, ele só, para o monte.

O povo estava ansioso por um líder. Estavam revoltados contra o domínio romano e esperavam por um líder capaz de expulsar o dominador romano. Pensaram que este líder pudesse ser João Batista, e agora transferiam suas expectativas para Jesus.

O povo esperava pelo messias previsto nas escrituras. Havia uma série de sinais que identificariam o messias. Por isso a frequência com que se fala em sinais neste Evangelho -embora o que Jesus ofereça sejam símbolos, e não sinais.

Jesus repete aqui um ato muito evidenciado no Evangelho de Lucas – retira-se sozinho para o monte. Lucas diz que Jesus subia ao monte para orar. Uma lição que serve para todos nós. Para recompor nossas energias precisamos nos afastar daqueles que esperam de nós algo que não estamos dispostos a oferecer (por não ser esse o nosso objetivo) e elevar nossas vibrações – “subir ao monte”.

  1. E, quando veio a tarde, os seus discípulos desceram para o mar.
  2. E, entrando no barco, atravessaram o mar em direção a Cafarnaum; e era já escuro, e ainda Jesus não tinha chegado ao pé deles.
  3. E o mar se levantou, porque um grande vento assoprava.
  4. E, tendo navegado uns vinte e cinco ou trinta estádios, viram a Jesus, andando sobre o mar e aproximando-se do barco; e temeram.
  5. Mas ele lhes disse: Sou eu, não temais.
  6. Então eles de boa mente o receberam no barco; e logo o barco chegou à terra para onde iam.

Esse fato, visto materialmente, não tem grande significância. Mas é preciso sempre buscarmos o simbolismo que se encontra por trás destes fatos.

Eles iam a Cafarnaum, já estava escuro e Jesus não tinha se aproximado deles. Cafarnaum quer dizer “cidade do consolador”. A ida até Cafarnaum simboliza a busca por consolo. Os discípulos de Jesus, que somos todos nós, buscam por consolo, veem escuridão por todos os lados e não veem a presença do Cristo.

A água representa o elemento gerador absoluto, o princípio material. O Cristo anda sobre o mar, ou seja, acima da materialidade. Quando o mau tempo agita a materialidade, estranhamos que o Cristo esteja acima disso, acima das coisas materiais. Então ouvimos sua voz: “Eu sou, não temais” – a tradução diz “sou eu”, e isso não está errado. Mas a ordem das palavras no texto grego é “eu sou”. “Eu sou” é o modo como Deus descreveu a si mesmo (Êxodo 3:14), e vamos ver que Jesus repete isso muitas vezes neste Evangelho.

“Eu sou” é a vida, é a consciência de que vivemos, de que existimos, e esta consciência é Deus em nós. Quando nos damos conta disso, percebemos que o Cristo está dentro de nós, que não adianta esperar encontrá-lo em meio às coisas materiais. Quando ouvimos a sua voz e percebemos a sua presença, aceitamos isso de boa mente e rapidamente chegamos ao nosso objetivo – somos automaticamente consolados.

  1. No dia seguinte, a multidão que estava do outro lado do mar, vendo que não havia ali mais do que um barquinho, a não ser aquele no qual os discípulos haviam entrado, e que Jesus não entrara com os seus discípulos naquele barquinho, mas que os seus discípulos tinham ido sozinhos
  2. (Contudo, outros barquinhos tinham chegado de Tiberíades, perto do lugar onde comeram o pão, havendo o Senhor dado graças).
  3. Vendo, pois, a multidão que Jesus não estava ali nem os seus discípulos, entraram eles também nos barcos, e foram a Cafarnaum, em busca de Jesus.
  4. E, achando-o no outro lado do mar, disseram-lhe: Rabi, quando chegaste aqui?
  5. Jesus respondeu-lhes e disse: Na verdade, na verdade vos digo que me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes.

Vemos que a multidão vai em busca de Jesus, e Jesus diz: “(…) me buscais, não pelos sinais que vistes, mas porque comestes do pão e vos saciastes” –  traduzido literalmente, as palavras de Jesus são estas: “procurais a mim não porque vistes sinais (ou símbolos) mas porque comestes dos pães e vos saciastes”.

Podemos interpretar de duas maneiras, e uma não exclui a outra: Jesus está dizendo que eles não deram atenção ao simbolismo oferecido por ele para o seu aprendizado espiritual – só estavam interessados no pão; ou Jesus está dizendo aqui que não houve sinais – o que houve foi apenas que todos comeram pães.

Uma multidão composta em grande parte de pessoas pobres, que trabalhavam duramente para o seu sustento, ficou deslumbrada com a ajuda recebida. A preocupação para a maior parte daquelas pessoas era o pão de cada dia. A esse propósito, Jesus chama a sua atenção:

  1. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem vos dará; porque a este o Pai, Deus, o selou.

Jesus fala em trabalho, sinal de que aqueles a quem ele se dirigia eram em sua maioria trabalhadores, que se preocupavam apenas em conquistar o alimento material. Jesus orienta aqueles espíritos (muitos dos quais permanecem entre nós) que temos que trabalhar pelo alimento do espírito.

Somos espíritos. Revestimos, de tempos em tempos, um corpo físico, mas somos espíritos imortais. O “filho do homem” é o resultado do homem, o homem no seu próximo estágio evolutivo, é consequência natural do progresso moral e intelectual efetuado pelo próprio homem.

O progresso é Lei de Deus. O progresso do espírito, consequentemente, tem o selo de Deus, a confirmação de Deus, a assinatura de Deus. É o destino de todos nós, sem exceção. Progredirmos fazendo o caminho de volta a Deus.

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