Comportamento, Mídia e sociedade

Os protestos pelo país numa visão espírita

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Morel Felipe Wilkon

Não há como não me manifestar a respeito dos protestos que varrem o país. Desde os caras-pintadas que protestaram contra o Collor, em 92, que não se via nada parecido. 

Estou de férias, e todos sabem que não acompanho a grande mídia. Quando tomo conhecimento de algum assunto que é notícia, é porque se trata de algo relevante. 

Temos fama de ser um povo pacato, até acomodado. Nem sempre foi assim. Colhemos hoje o que foi plantado em mais de duas décadas de regime militar, onde qualquer manifestação popular era proibida. Antes do regime, no discurso de Jango, na Central do Brasil, mais de 150 mil pessoas se reuniram para apoiar o presidente em busca de reformas. Pouco depois, em decorrência deste mesmo discurso, desta vez em oposição ao presidente, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, promovida pelos setores conservadores da sociedade, congregou meio milhão de pessoas, quando a população do país era de 80 milhões. Citei apenas dois fatos históricos conhecidos. Mas era comum o protesto e a reunião de massas.

Os protestos pelo país numa visão espírita
Os protestos pelo país numa visão espírita

Acho uma grande vantagem sermos um povo pacífico. Há muito menos ódio aqui, em terras brasileiras, do que em países conhecidos pelas grandes mobilizações. Por sermos normalmente pacíficos, temos total legitimidade para protestar quando o momento pede protesto. E o momento, agora, pede protesto. E, para surpresa de muitos, os protestos têm sido, em sua maioria, pacíficos e ordeiros.

Claro que a baderna sempre aparece mais. Há uma proliferação de fotos mostrando cenas de violência e depredação. Mas já há grupos organizados que se propuseram a consertar o que foi depredado pelos vândalos. É o que precisamos para demonstrar a maturidade da contestação. Os últimos movimentos de contestação vinham se destacando pelo radicalismo, pelo pequeno número de participantes e pela vinculação, direta ou indireta, desses grupos, a partidos políticos. 

Talvez o maior mérito do movimento de protestos que vem ocorrendo seja a sua não vinculação a nenhuma organização político-partidária. Os organizadores e participantes do movimento estão conscientes de que não precisam do apoio oportunista de partidos políticos interessados em tirar proveito da situação. 

Fruto das redes sociais. A propósito, cito trecho do artigo que escrevi e publiquei em 21 de Dezembro último

As redes sociais já fazem parte do cotidiano de milhões e milhões de pessoas, ocupando um espaço cada vez maior. A tecnologia vai fazer com que nos tornemos cada vez mais seletivos. Cada vez mais iremos nos relacionar com os que compartilham de nossas ideias.

A tecnologia nos propiciará a união de nossos pensamentos. Não está longe o dia em que milhões de pessoas sinceras se unirão no mesmo instante em pensamento elevado e transformador. E quando ficar claro o poder que alcançamos em união, tudo se tornará mais fácil. Transformações políticas e sociais estarão ao nosso alcance.

As redes sociais tornam possível o que há algum tempo atrás era utópico: A união de pessoas com os mesmos objetivos sem serem necessariamente pertencentes à mesma classe, grupo, lugar. O movimento acontece naturalmente.  A propósito, a questão 797 do Livro dos Espíritos: 

Como poderá o homem ser levado a reformar suas leis?

– Isso ocorre naturalmente, pela força mesma das coisas e da influência das pessoas que o guiam na senda do progresso. Muitas já ele reformou e muitas outras reformará. Espera!

Os protestos que estão acontecendo tomaram uma amplitude maior, mas começaram contra o aumento das passagens de ônibus. Os críticos dessas manifestações ridicularizam os jovens, numa tentativa de tirar deles a legitimidade de suas reivindicações. Criticam o jovem por protestar. Mas também costumam criticar os jovens por não serem politizados… Também alegam que o motivo dos protestos é pequeno, já que se trata de alguns centavos de aumento das passagens. Os que assim se posicionam não se colocam no lugar de quem é usuário de transporte público, para quem qualquer diferença faz a diferença. Por viverem uma realidade econômica diferente, não levam em consideração as dificuldades financeiras da maioria da população. 

Protestar em nome da sua classe social é legítimo e construtivo. Quem pensa diferente talvez não considere a agilidade e o dinamismo da Lei do progresso, que deve contar com a participação da sociedade. Conforme nos esclarece a questão 850 do Livro dos Espíritos:

A posição social não constitui às vezes, para o homem, obstáculo à inteira liberdade de seus atos?

– É fora de dúvida que o mundo tem suas exigências. Deus é justo e tudo leva em conta. Deixa-vos, entretanto, a responsabilidade de nenhum esforço empregardes para vencer os obstáculos.

Nosso modelo e guia, Jesus, contestou as leis anacrônicas de seu tempo. Não se calava diante dos poderosos. Mas era ordeiro, manso e pacificador. Nunca pregou a revolta ou a desobediência às leis. Nunca é demais lembrar.

Este período já faz parte da História. Que a História continue sendo escrita a partir de movimentos cada vez mais articulados e ordeiros. Isso é apenas o começo. E esse começo não deve desanimar se não trouxer resultados imediatos. Devemos lembrar que as redes sociais são virtuais, mas que a estrutura de poder continua e continuará, por algum tempo, protegida e distante. 

O melhor de tudo, num primeiro momento, é o exemplo de grupos que se organizaram para limpar e arrumar o que alguns baderneiros bagunçaram. Atitudes com essas desarmam qualquer tentativa de desmerecimento por parte de quem se sinta atingido pelos protestos. É ação no melhor exemplo cristão, mesmo que essas pessoas não sejam cristãs. É dar de si mesmo, sem buscar culpados ou desculpas. Temos muito o que aprender com elas.

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24 Comentários

  1. A nossa evolução por vezes dá saltos, que embora parece engessada, o nosso petróleo que passou tempos “escondido” (talvez até evitando conflitos civis, políticos e econômicos) pela incapacidade tecnológica de remoção agora surge no chamado pré-sal onde nossos “representantes” atuais elaboram documentos destinando verbas para educação achando que, como da maioria das outras vezes, que isso não será cumprido, mas a juventude está na rua e Emmanuel chegando pra cuidar com todo zelo da nossa educação escolar, possivelmente não com o giz mas com a caneta em punho.

  2. Excelente análise, Rômulo. A homenagem que presto a estes intelectuaizinhos é não tomar conhecimento de suas opiniõezinhas. Não acompanho a grande mídia e ses falsos profetas. A internet é a ferramenta de que dispomos para a nossa independência em relação a esses posicionamentos “oficiais”.
    Obrigado pela colaboração.

  3. Eu me entristeço com a ridicularização sofrida pelos manifestantes pacíficos. No começo das manifestações, quando a coisa ainda não era grande como se tornou, muitos intelectuais ridicularizavam a atitude dos manifestantes com boas argumentações. Uma delas era que os protestos deveriam focar em coisas mais importantes como Educação, Saúde e diminuição de impostos (que certamente seria uma maneira mais inteligente de fazer a taxa das passagens de ônibus diminuírem, sem nos cobrarem os R$ 0,20 centavos de outra maneira, como será feito). Mas estes intelectuais, mais esclarecidos, foram os que menos participaram ou não participaram de nenhuma manifestação.
    Os ignorantes, aqueles que sentiam a injustiça mas não sabiam explicá-la, não se limitaram a protocolos e fizeram aquilo que todos os brasileiros deveriam fazer.
    Gostaria que a mídia e os pseudointelectuais parassem de relacionar os manifestantes com os vândalos, ridicularizando a imagem de uma parte pacífica e bem-intencionada.

  4. Concordo com você, Morel. A população está mudando.
    Creio que as manifestações desses últimos dias foram um marco. De agora em diante, será diferente.
    Muito obrigado.

  5. Ana Paula, nem sei o que seja a tal nova era. Mas você julga sem conhecer. Como saber qual a intenção e o posicionamento da maioria? É claro que a mudança é interna e individual, mas isso não exclui a manifestação da cidadania.

  6. Desculpem-me, mas não acredito que seja o início das mudanças para a “nova era” como alguns andam dizendo… A maioria está ali no meio da multidão como se estivesse pulando nos blocos de carnaval. E, com certeza, se a maioria dos manifestantes estivessem no lugar de quem eles tanto estão acusando, eles fariam a mesma coisa!

    Para se conseguir um país justo e sem corrupção, é necessário que cada um aprenda a ser honesto nas suas pequenas atitudes! E não é isso o que eu vejo diariamente ao meu redor! A maioria sempre apela pelo famoso jeitinho brasileiro para levar vantagem em tudo, visando apenas o próprio umbigo. E os jovens de hoje estão ficando cada vez mais violentos, narcisistas e egoistas.

    Sou espírita. Não sou pessimista, sou realista!

  7. Oi, Morel. Estou pedindo aos espíritos de luz que iluminem todos que estão nas ruas com boas ideias, que não sofram com aqueles que querem só baderna. Obrigada por você não ficar em cima do muro, um grande abraço fraterno.

  8. É a hora, isso está dentro dos nossos corações! Eu sempre tive fé na minha geração e tenho um orgulho enorme de vê-la mostrar que com união, fé e paz é possível chamar a atenção para as falcatruas sempre engolidas. A gente já não aguenta mais tanto desrespeito para conosco, com todo o povo trabalhador, pessoas de bem estão a cada dia tentando sobreviver frente às dificuldades.

    Mayra
    isso é maravilhoso!! força e luz!

  9. Muito bem Morel!
    Penso desta mesma forma…

    Assim como tenho vibrado para que se transcorra da melhor forma possível, sem violências etc.
    Porém é necessário que a população, nós, procuremos os nossos direitos…

    Forte abraço.

  10. Excelente artigo, e é interessante notarmos que os protestos, certamente, não foram planejados apenas pelos encarnados. Resta-nos torcer para que a espiritualidade superior, em nome de Jesus e do Senhor da Vida, inspire a todos os manifestantes de bem, no sentido de trazer as melhorias que o país precisa.

    O planeta está prestes a regenerar-se!

  11. Acredito muito em Jesus e seus auxiliares como Ismael
    Anjo tutelar do Brasil!! Tudo está em seu lugar, cabe-nos
    vibrar pela Paz!!! Sempre!!! As manifestações são justas a violência não!!!
    Admiro os que se dispõem a concertar os erros!!

  12. Ah, estava mesmo curiosa para saber sua opinião sobre esse assunto! Fiquei contente de encontrar esse artigo hoje, no meio das suas férias.

    No mais, hoje após o trabalho estarei lá ajudando a limpar a fachada da prefeitura de SP. Quem quiser aparecer, será muito bem vindo!

    Abraço para todos que me leem e um ótimo dia!

  13. Ângelo Nunes, talvez por estar ouvindo música angolana ultimamente, a primeira coisa que lembrei quando proliferaram os protestos foi de Angola. Pelo que observo até agora, o movimento segue direção contrária. Oremos por isso. Obrigado pelo carinho.

  14. Companheiro de Jornada, Morel Felipe Wilkon.
    Sou Angolano e sei que às vezes estes movimentos que começam pacíficos e, depois basta haver uns infiltrados com a ajuda das forças das trevas que estão sempre à espera de uma brecha para atuarem, foi isto que degenerou uma guerra de 30 anos no meu país, com as consequências que todos nós conhecemos… Espero muito sinceramente que os irmãos brasileiros não se deixem levar pelas forças das trevas e… por favor retirem aqueles cartazes que alguns jovens ostentavam com os dizeres “A Primavera Árabe chegou ao Brasil mas nós ficamos aqui até ao Verão”, vi isto no vosso canal da Band internacional.
    Muita Paz para o Brasil e para o Mundo!…
    Um abraço fraterno,
    Ângelo Nunes

  15. Apesar de ouvirmos de todas as direções que os jovens não sabem o que querem, é bom saber que eles estão buscando um caminho que leva ao crescimento moral. É mais emocionante ainda ouvir que grupos estão prontos a consertar aquilo que alguns destruíram. Esses sim farão o futuro do Brasil e do planeta.

  16. A Globo interrompia a novela para mostrar o que estava acontecendo, por isso não era necessário trocar de canal 😉

  17. É verdade, as novelas medíocres foram abandonadas ontem para dar lugar a algo que realmente importa, uma manifestação genuína do cidadão brasileiro. Eu apoio totalmente, tomara aumente o numero de manifestantes, mas tudo em ordem e decência.

  18. Acredito que essa geração está aprendendo a manifestar-se, sair nas ruas… quem sabe não saem perto das eleições do ano que vem, quem sabe as idéias não amadureçam e melhore o foco das manifestações… a certeza é que muita gente no Brasil ontem, na hora da novela, mudou de canal e foi pra Band ou Record e viu aquele monte de gente nas ruas e pela primeira vez surgiu um sinal de interrogação em cima da cabeça… um começo… tenhamos fé…

  19. Há algum tempo escutei que a Terra estava passando por um processo de transformação que o bem passaria a assumir seu verdadeiro papel e que muitos se manifestariam. Até então estava um tanto descrente, por não observar nada nesse sentido, mas com essas manifestações baseadas no bom senso e sem violência mostram que pessoas de bem estão nas ruas, claro que existem oportunistas, mas o fato de ver um manifestante levando nos braços um policial ferido, de pessoas querendo corrigir os erros dos outros, nos faz pensar realmente de que mudanças estão ocorrendo. As pessoas de bem não conseguem se calar diante de tamanhas falcatruas, de tanto dinheiro mau empregado em detrimento de ajudar a quem mais precisa. Nas redes sociais estamos vendo muitos protestos, mas não estão ficando só no virtual e as mudanças parecem realmente estarem acontecendo. Que Deus ilumine a cada pessoa, que busque se manifestar através do bem, dar exemplo e mostrar que podemos sim mudar o mundo, pois só depende de nós !!! Fiquem todos com Deus !

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