Comportamento

Você se leva a sério?

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Você se leva a sério? E ainda por cima acha isso uma virtude? Não há problema algum em ser sério, em apreciar as coisas sérias, mas será correto levar a sério tudo o que se pensa, se acredita, se faz, se diz? Será que assim você não se torna escravo de si mesmo?

– Mas é preciso ser coerente – você argumenta, exasperado. Coerente com o quê? Com o seu passado?

Você se leva a sério?

Coerência é compromisso com o passado, ser coerente é agir de acordo com o que fala, falar de acordo com o que pensa, pensar de acordo com o que crê. É muito bom ter uma crença sólida. É muito vantajoso ter uma linha de pensamento bem definida, uma corrente de raciocínio bem estruturada. Ajuda na hora de se expressar, sempre se encontra o que se quer na cabeça, as sinapses usadas são sempre as mesmas, fundas como trilhas indígenas na mata.

Claro que isso é exagero. Você precisa de uma base em que se apoiar ou seria uma  eterna metamorfose ambulante, como diria Raul.

Mas não é um exagero levar a si mesmo muito a sério? Você não é dono da verdade, não sabe quase nada, não tem essa importância toda pra humanidade. Então pra que se encher de dedos quando alguém discorda das suas ideias? Cadê a humildade? Nem precisa ir tão longe; cadê o senso de humor? A vida é muito mais bela, leve e solta do que carrancuda, austera e rabugenta.

Cuidado com esse negócio de coerência. Hoje se tem falado muito em coerência, é artigo valorizado. É importante praticar aquilo em que se crê ou que se prega aos outros. Fundamental, até. Mas ficar escravizado a ideias bolorentas e conceitos mofados em nome da coerência? Quando você aprendeu esses conceitos e adquiriu essas ideias você era uma pessoa, vivendo uma determinada etapa de sua vida, com algumas experiências, foi um contexto que não existe mais. Você é outra pessoa hoje. Você é espírito imortal, mas a personalidade que anima hoje comporta vários personagens dentro de uma vida. Ou você é o mesmo de dez, vinte, trinta anos atrás? Não, né?

Há ideias eternas. Mas até o modo de vê-las e interpretá-las muda. E precisa mudar. Você já releu um livro muito tempo depois de lê-lo a primeira vez? O livro era o mesmo, mas não foi outra a sua visão a respeito dele? Os conceitos são e precisam ser permanentemente atualizados. Ou você prefere permanecer fiel aos conceitos vigentes à época em que leu o livro pela primeira vez em nome da coerência?

Não se leve tão a sério. Valorize-se, mas não seja chato. Aceite o diferente, o divergente. Ser coerente é ter todas as certezas, nunca pensar, falar ou agir de maneira inadequada ao que se crê. Nunca desviar do caminho, nunca sair do trilho. Parece bonito, mas e as coisas novas? Os novos conhecimentos que vão surgindo, pedindo adaptações nos planos, inevitáveis mudanças de opinião e adequação da trajetória?

Ser coerente a todo custo, no fundo, denota medo. Quem se leva muito a sério em nome da coerência teme o desconhecido, quer continuar pisando em terreno firme e conhecido. Que é o medo senão um mecanismo de defesa que nos avisa que estamos rumando para o desconhecido?

Seja sério, se gosta dessa natureza. Mas não deixe de lado o senso de humor, a curiosidade pelas coisas novas ou simplesmente desconhecidas, pergunte-se, questione-se. Quando você tiver resposta pra tudo talvez seja hora de se atualizar, aprender outras respostas para outras perguntas. Seu universo está se limitando, e isso é um passo para o fanatismo e para a intolerância.

Ninguém é assim tão inteligente, tão superior, que não precise aprender sempre mais, se refazer de tempos em tempos. Nem aqueles seus ídolos e gurus da juventude sabiam tanto quanto desejavam saber, ou desejavam fazer crer que sabiam. Somos dinâmicos, somos espíritos imortais.

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