Reforma íntima

Espiritismo e honestidade emocional

Espiritismo e honestidade emocional
Espiritismo e honestidade emocional

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Para lidar com as crises emocionais, é preciso reconhecê-las. Isso requer honestidade emocional.

O espiritismo é a fé raciocinada, por isso damos muita importância à razão. A razão é imprescindível para o estudo do espiritismo. Essa é a parte intelectual. Não vejo nenhuma dificuldade em relação a isso. Mesmo que eu não tivesse experiências pessoais em outro plano, a razão seria suficiente para me persuadir acerca da realidade estudada pelo espiritismo.

Mas não somos assim tão racionais. Você é? Eu, nem sempre. Acontece que entre a razão e a ação está a emoção. Entre a mente e a matéria estão nossas emoções, que interferem em maior ou menor grau em nossas decisões.

Acho que a maior dificuldade em controlar nossas emoções se deve ao fato de exercermos muito pouco domínio sobre nossa consciência. Quantos minutos de consciência plena você utiliza num dia? Sim, minutos. Se você consegue se manter consciente de seus pensamentos, palavras e ações durante uma hora por dia, mesmo que intercaladamente, você está muito além da média.

Fazemos quase tudo no piloto automático, somos escravos dos nossos hábitos. Isso não é necessariamente ruim, é até necessário. Podemos realizar um monte de tarefas sem precisar prestar atenção exclusiva a elas. Só que na hora em que precisamos concentrar a consciência, estamos tão destreinados que ficamos dispersivos e agimos por instinto. É o que acontece quando nos deixamos envolver pelas emoções.

Você é emocionalmente honesto? Você joga limpo consigo mesmo quando se trata das suas emoções? Ou você atribui seu descontrole ao seu estilo, ao seu jeito, ao seu temperamento? Do tipo “ah, eu sou assim mesmo”?

Quando você sente raiva, tristeza, inveja, você tem consciência do que está ocorrendo? Você consegue perceber o significado do que você está sentindo nessas horas? Se não analisarmos o porquê de sentirmos essas emoções indesejadas, como poderemos evitá-las e crescer com elas?

Ao fazer essa análise reconhecemos nossas fraquezas. Sabemos o que nos faz sentir ameaçados a ponto de sentirmos raiva; sabemos o que frustra nossas expectativas gerando tristeza; sabemos por que gostaríamos de ter algo que alguém tem e nós não temos e por que isso desperta nossa inveja. – Como praticar a reforma íntima sem entrar em contato com o seu íntimo?

Quando nos deixamos dominar pelas emoções, nosso orgulho instintivamente busca culpados. Como se sempre houvesse algum culpado pelo que ocorre em nosso íntimo. Se conseguirmos analisar a causa das emoções será mais fácil nos responsabilizarmos por elas. Precisamos admitir que somos responsáveis pelo que se passa quando estamos sob efeito dessas emoções.

Por isso a importância de nos mantermos conscientes. Na maior parte do tempo somos guiados pelo piloto automático, e nas horas de emoções fortes agimos impulsivamente. Não acho que seja fácil treinar a consciência a ponto de nos dominarmos completamente num momento de forte emoção. Mas podemos dar tempo ao tempo, podemos ao menos evitar a impulsividade.

A consciência, o “Eu”, essa voz que fala dentro da sua cabeça, esse olho que observa você o tempo todo, a sua consciência não se confunde com as suas emoções. São níveis distintos. É possível manter-se consciente durante uma crise emocional. É como entrar numa nuvem negra. Com a consciência concentrada, é possível deixar que as emoções sigam seu fluxo normal, como um visitante indesejado que não pode ser mandado embora. O que nos resta é observar o visitante e esperá-lo sair.

Se damos tanto valor à razão, não podemos agir movidos pelo instinto. O animal que ainda existe dentro de cada um de nós já era pra ter sido superado há bastante tempo. Precisamos apagar os vestígios de irracionalidade que trazemos em nosso íntimo.

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22 Comentários

  1. Eu já li alguns textos que falam isso “É possível manter-se consciente durante uma crise emocional.”
    Mas em nenhum consegui entender como? De que forma? Sou muito impulsiva, e sofro muito com minhas atitudes impensadas. Sinceramente, não sei como agir?

  2. Marco, mergulhar em nossas sombras eu não recomendo, embora já tenha ouvido uma boa tese sobre isso. Para alguém um pouco mais adiantado que eu o ideal seria o desenvolvimento de um método de controle seletivo das emoções, não permitindo que emoções negativas se instalem. Não cheguei a esse patamar. Então, num momento de raiva, por exemplo, não consigo simplesmente suprimi-la, interrompê-la. A raiva se manifesta por vários sintomas físicos, como elevação da voz, dor de cabeça, dor de estômago, aperto na garganta, aumento do batimento cardíaco, aumento da pressão sanguínea, tensão muscular, apertar os punhos, fúria etc.
    A observação destes sintomas, em nós mesmos, no instante em que percebemos que estamos com raiva, nos permite a manutenção da consciência sobre os nossos atos. Observamo-nos como se estivéssemos prestando atenção a outra pessoa, a um doente. Notamos e sentimos o sangue subir à cabeça, o coração acelerado, o tremor nas mãos, a falta de ar. Tudo muda de figura. Nos damos conta de que expressar uma emoção assim é uma atitude ridícula, e, mais que isso, na maioria das vezes não é real. É só deixar passar. Se observamos os sintomas e deixamos passar, não perdemos o controle. E podemos usar a emoção positivamente. Falando ou fazendo o que em outro momento não teríamos coragem, por exemplo.
    Você mencionou a vingança. Retribuir o mal de maneira instintiva é uma coisa, planejar vingança é outra. Acredito que a observação dos sintomas e consequente manutenção da consciência das emoções nos permitem superá-las por constatarmos que somos muito superiores a isso. Sempre com consciência. Sempre sabendo que as emoções passam, mas os erros que porventura cometermos quando dominados por elas cobrarão seu preço. Nos momentos de crise aguda, como a raiva ou a grande tristeza, respirar profunda e pausadamente e beber água lentamente também ajudam muito.

  3. Morel fiquei com uma duvida, principalmente quanto a resposta para o amigo Ricardo logo acima.
    Quando temos que observar e analisar nossas emoções – pensamentos, temos que evitar que se exteriorize para o próximo (para que não o machuque). Por exemplo, se eu sinto raiva e ondas de pensamentos como vingança me veem, para não suprimir e guardar devo então manifesta- lá; ou eu devo senti- lá e observa- lá dentro de mim, mas nessa ultima, se eu praticar assim não estarei apenas deixando que passe ao invés de realmente mudar?
    Outra coisa, às vezes é necessário mergulharmos em nossas sombras?

  4. Hiago, me refiro à consciência fenomenal, à qualidade de “estar ciente”, à capacidade de perceber a relação que há entre si mesmo e o ambiente que nos cerca. Este “saber o que faz”, a que você se refere, é o que nos diferencia dos animais.
    Usamos muito pouco de nossa consciência. A maior parte dos nossos pensamentos não passam por nossa consciência. Com palavras e atos ocorre o mesmo.

  5. Morel, criei uma dúvida ao ler esse post: como assim, estar consciente? Em que sentido se entende esse adjetivo, unicamente como ”saber o que faz” ou é mais profundo?

  6. Muito bom, amigo. Psicólogo, entendedor das “emoções” que tanto nos atormentam; humano e, sobretudo muito corajoso. Que Deus o conserve intuído por espíritos tão iluminados. Abraços.

  7. Obrigado, Elenice. Poucas pessoas valorizam o poder que a meditação exerce em nosso íntimo. Precisamos desse recolhimento diário. Mas é preciso experimentar. Não é algo que se aprenda intelectualmente. Um abraço em você também.

  8. Eu estou no princípio da “arte” de tentar entender e controlar minhas emoções…
    Tinha momentos de pânico, quando chamava um dos meus filhos no cel. ou no face time e não atendiam, logo vinham somente pensamentos negativos.
    Agora, após muito tempo de agonia em que fui adquirindo vários resfriados, gripes que evoluíram para uma sinusite, estou tentando livrar-me de tudo que não me agrega algo de bom e faço também meditação durante 15 minutos por dia e já estou sentindo resultados positivos e recomendo a todos que façam uma pausa durante seu dia e remetam seus pensamentos para seu interior e mandem para bem longe tudo de ruim que acumulou em sua mente, livre-se das toxinas da vida…a ssim você viverá em harmonia com seus sentimentos… um abraço Morel.

  9. Roberto, todos temos nossas fraquezas. Mas nós “caímos” nessas fraquezas em busca de sensações mas também da emoção que elas provocam. Acho que a maior parte, senão todas asfraquezas que atribuímos “à carne” são na verdade fraquezas emocionais. Somos emocionalmente imaturos e dependentes.

  10. Meus problemas são outros. Tenho fraquezas que não consigo dominar. Quando vejo, já caí. Emoções, tenho o controle da maior parte.

  11. Ricardo, sinto muito em desapontá-lo, mas não saberia indicar nenhuma obra que trate especificamente do assunto. O que proponho é resultado de alguns anos de tentativas em busca do meio-termo, do equilíbrio. Sempre tive tendência à raiva. Durante bastante tempo sucumbia às crises de raiva sem me importar com as consequencias. Quando percebi o malefício que isso pode causar a outras pessoas, passei a sufocá-la. Consegui; mas ganhei uma alergia da qual não me livrei até hoje. Como você assinalou, as emoções internalizadas recaem sobre nós mesmos…
    Anos atrás, como meio de treinamento para desenvolver a lucidez durante o sono, comecei a examinar a mim mesmo e ao ambiente o máximo possível, e a fazer análises diárias sobre o andamento dos meus dias. Como efeito colateral, comecei a perceber minhas falhas e emoções imediatamente, algumas vezes a tempo de controlá-las e revertê-las (nem sempre, é bom frisar). Em relação à raiva, especificamente, adotei o método de observar a mim mesmo, aos sintomas físicos, às distorções momentâneas que ela provoca no raciocínio. Observo a mim mesmo como se eu fosse uma terceira pessoa. Com isso deixo a raiva fluir em suas manifestações físicas, sem tentar interrompê-la. Ao mesmo tempo, graças à observação, é possível evitar “explosões”, “dar um tempo”, pois essas emoções geralmente são superficiais e passam logo. Não há truque e não é infalível. Mas, pelos resultados que colhi até agora, acredito que valha a pena insistir nisso.
    Mas Ricardo, independente de qualquer tentativa de controle sobre as emoções, não conheço nada mais eficaz para conhecer-se a si mesmo (a partir daí é mais fácil a correção de rumos…) do que a análise diária, de preferência à noite, dos principais pensamentos, palavras e ações do dia.

  12. Caro Morel, gostaria de saber mais indicações de textos para que eu pudesse aprofundar no assunto. Por enquanto, deixo uma dúvida. O que você quer dizer com deixar que as emoções sigam seu fluxo? Penso que o problema é que elas vão para algum lugar. Se colocamos para fora, aginda impulsivamente, somente pioramos a situação. Do contrário, se internalizamos, descarregamos a carga energética negativa sobre nós mesmos… Por fim, nem sempre a atividade física ou outros métodos de meditação e outras coisas resolvem…

  13. Fofucha, a culpa só é útil se provocar uma necessidade de mudança. Você sabe a resposta, nós sabemos. É claro que devemos ser mais conscientes para mantermos o domínio sobre nós mesmos. Mas mudanças de verdade só irão acontecer quando nos propusermos firmemente a uma reforma íntima que modifique nossos padrões mentais. É pra isso que estamos encarnados…

  14. Olá amigo! Parece que isso foi escrito para mim, eu com muita terapia com psicólogos agora consigo entender cada emoção e cada sensação que sinto, mas muitas das vezes não consigo controlá-las, tipo eu sei que pela razão e pela moral eu não devo fazer determinada coisa, mas a emoção cutuca, chama eu viver uma adrenalina que parece irresistível, daí eu me submeto ao impulsso depois a culpa vem como uma navalha no meu peito, me lembrando a cada instante que mesmo eu sabendo que o que eu fiz não era certo eu fiz mesmo assim na adrenalina das emoções. O que fazer? Saber administrar a culpa ou dar mais resistência à razão e à consciência?

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