Mídia e sociedade

Espiritismo e o Dia da Consciência Negra

mulher negra

Morel Felipe Wilkon

Consideração sobre o Dia da Consciência Negra pelo ângulo do Espiritismo.

O Dia da Consciência Negra marca a história do escravo Zumbi dos Palmares. Zumbi foi capturado e morto em 1695, aos 40 anos. Nasceu em Palmares, atual Estado de Alagoas, e se tornou conhecido quando tinha 25 anos de idade ao liderar a comunidade que ficou famosa como Quilombo dos Palmares. Era uma comunidade livre formada por escravos fugidos de engenhos de açúcar.

Zumbi e esta data se tornaram símbolos de resistência à opressão. Resistência às tentativas de aniquilamento de seus valores africanos. Sei que muitos temas são debatidos em função desta data: a inserção do negro no mercado de trabalho, as cotas universitárias, a discriminação.

Mas não há como passar por esta data sem lembrar da escravidão. Minha geração não aprendeu quase nada sobre o negro na escola. O assunto-base era sempre a escravidão. Na faculdade de História este tema persistiu, sob diferentes abordagens.

menina negra e menina branca
O espírito não tem cor…

O Brasil que conhecemos ainda é o Brasil construído a braço negro. As antigas edificações, a visão preconceituosa em relação a certos trabalhos, a estrutura organizacional do Brasil é herança direta de um tempo que, por muito tempo ainda, vai cobrar seu preço.

É evidente que os milhões de espíritos envolvidos diretamente na escravidão continuam por aqui. Africanos que eram caçados na sua terra aos quinze ou dezesseis anos, assim que a musculatura aguentasse o trabalho pesado, eram arrastados para o litoral da África, onde eram vendidos em troca de fumo, aguardente e quinquilharias. Vinham às dezenas, amarrados uns aos outros pelo pescoço, em fétidos porões de navio, comendo pouco e fazendo suas necessidades no mesmo espaço em que dormiam. Muitos morriam no caminho. Ficavam os mais fortes.

Quando desembarcavam eram examinados como se fossem animais; olhavam seus dentes, suas canelas, seus pulsos. Seu destino era as minas, onde hoje é o Estado de Minas Gerais, ou os engenhos de açúcar do Nordeste. Trabalhar até dezoito horas por dia. E a violência, os castigos físicos, a humilhação, a destruição do amor-próprio, a solidão, a total falta de alguém com quem conversar, já que havia várias etnias e dialetos. Sem amor, sem carinho, sem afeto algum, sem sexo, sem prazer de nenhuma espécie, sem nem ao menos ter o consolo de sua religião.  

Isso não foi num lugar isolado ou num período curto de tempo. Foram milhões de espíritos durante séculos. Claro que a crueldade não existiu em todos os lugares e que o tratamento dado a eles foi se humanizando aos poucos. Com o tempo muitos negros nasciam em solo brasileiro, e formavam algo parecido com família, e tinham direito a alguma manifestação religiosa. Esse processo de abrandamento das relações está em pleno andamento. Um canetaço da princesa Isabel acabou com a escravidão, mas na espiritualidade as relações continuaram como antes.

Leia sobre a abolição da escravatura aqui: Espiritismo e a abolição da escravatura

Se discute, nesta data, a situação do negro na sociedade. Essa é a parte visível. Mas  a situação destes espíritos, em muitos casos, é caótica. Muitos não conseguem perdoar, não conseguem se desfazer do ódio. Isso gera violência urbana e conflitos espirituais graves.

Séculos de sofrimento não se apagam facilmente. Os escravos, os capatazes, os capitães do mato, os religiosos coniventes, as sinhás e os senhores de escravos estão entre nós, em situações que não nos permitem reconhecê-los.   

O Brasil carrega a mácula da covardia e da tortura. Durante o regime militar policiais torturavam suspeitos. Aliás, isso foi prática comum no Brasil até há pouco tempo, e de vez em quando ainda se tem notícia de algum fato assim, como a suspeita de que tenham torturado até à morte o ajudante de pedreiro Amarildo e ocultado o seu cadáver.

Me refiro ao Brasil por ser a nossa pátria, o lugar neste planeta em que estamos nos desenvolvendo espiritualmente. Mas nada disso é privilégio brasileiro. Na América do Norte os índios e os mexicanos foram trucidados. Na Roma Antiga os primeiros cristãos, durante séculos, foram perseguidos e mortos brutalmente.

No Brasil se discute, e com razão, os males sociais, econômicos e morais que atravessamos. Mas o mal maior é o espiritual. É urgente o perdão entre todos os envolvidos nesta grande tragédia brasileira. É preciso conscientização de que é possível recomeçar, que todos erramos, que não existem inocentes, que os papéis de carrasco e vítima se invertem, que o perseguidor de hoje é o perseguido de ontem, e que só o perdão é capaz de colocar um fim nesta saga infrutífera.

Sou otimista em relação ao Brasil. Sei que anos difíceis, em termos morais, nos aguardam. A banalização do sexo, focos de violência selvagem, a ausência de valores e as experimentações de todo tipo ainda não alcançaram o seu auge. Mas depois vem a calmaria. Então não haverá necessidade de “Dias da Consciência Negra”, “Dias do Índio”, cotas raciais, porque essas  separações já não existirão.

Por enquanto…

Que o negro goste de estar negro, que olhe para os seus antepassados com carinho e admiração por terem suportado tamanhas dificuldades. Que aproveite essa existência num corpo negro e as experiências que isso pode proporcionar.

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16 Comentários

  1. O GRANDE ERRO ACONTECEU QUANDO NEGROS ENTREGAVAM OUTROS NEGROS AOS EUROPEUS EM TROCA DE ESPELHOS ETC..FALTOU LUTA RESISTENCIA SERIA PREFERÍVEL MORRER DO QUE SE SUJEITAR A PRISÃO.MAS DEU NO QUE DEU ATÉ HOJE A AFRICA NEGRA É DESUNIDA,MAL SABENDO ELES QUE A COR DA PELE DEVERIA SER A SUA UNIÃO.
    INDEPENDENTE DE QUALQUER COISA.

  2. Com certeza vamos todos pagar por essa tragédia que foi a escravidão, o carma é coletivo, todos somos devedores de alguma forma.

  3. Você tem razão, Augusto. Pedro II resistiu durante muitos anos a abolir a escravidão com receio de quebrar a economia, então baseado no café, a braço escravo, e temendo que acontecesse o que aconteceu. As primeiras favelas do Rio de Janeiro surgiram logo depois. Muitos caíram na marginalidade, não havia oportunidades. Por outro lado, se esperássemos condições ideais, a escravidão existiria até hoje…

  4. Concordo em tudo, Morel. Respeito aos nossos irmãos em tudo! Uma dica de filme que retrata bem tudo o que voce escreveu: Filme (amistad). Um abraço.

  5. Infelizmente a escravidão não chegou ao fim com a simples publicação da Lei Áurea. A abolição da escravatura relegou os negros à sua própria sorte. Sem qualquer planejamento para integrar o negro liberto à sociedade, a opção era continuar trabalhando em condições subumanas ou se refugiar na marginalidade. Ganharam a liberdade, mas não ganharam posses, nem terras, nem títulos. Abandonados em um país estranho, de costumes estranhos, longe de suas famílias, sobreviveram como puderam, sem qualquer apoio oficial. Alguns em condições mais degradantes do que quando eram escravos. E o nosso querido país, como sempre, acha que resolve todos os problemas na base da “canetada”. Muito obrigado a todos os nossos irmãos negros, pelo suor desprendido em favor dessa terra, pela coragem, obstinação e tolerância com a nossa infeliz loucura.

  6. Obrigada, Morel, pela resposta, adorei ( Justiça é a Lei divina, que é Amor. Injustiça é proveniente da imperfeição dos homens.), me fez lembrar os atributos do criador, quando estudava no CE, um deles era (justo) como preenche falar sobre isso… Glória a Deus NAS ALTURAS E PAZ NA TERRA AOS HOMENS DE BOA VONTADE.

  7. Georgiana, como você acentuou, o espírito não tem cor, logo, não reencarna sempre como negro ou como branco. A maioria dos espíritos que vieram da África nos tempos da escravidão, assim como os índios brasileiros da mesma época, eram espíritos mais novos, menos experientes intelectual e moralmente que os europeus que os escravizaram. Muitos deles reencarnam somente agora, depois de décadas ou mesmo séculos de sofrimento no astral. É natural que não tenham tido oportunidade de evoluir muito neste intervalo de tempo. Brancos que perseguiram e escravizaram negros também podem reencarnar como negros, como modo de facilitar o seu entendimento sentindo na própria pele algo próximo do que fizeram alguém sentir no passado.
    É preciso considerar que entre os africanos que vieram para o Brasil ou entre os negros já nascidos em solo brasileiro havia vários espíritos de grande sabedoria e humildade, que se sujeitaram à vida rude da escravidão como forma de protegerem com seus conselhos e seu carinho os espíritos custodiados por eles mesmos. São os espíritos que se apresentam, muitas vezes, como pretos-velhos nos terreiros de Umbanda. Espíritos experientes, adiantados intelectual e moralmente, mas que usam da aparência do preto-velho para melhor servir àqueles que precisam dessa imagem humilde e compreensiva para melhor receber o auxílio do Alto. Há uma declaração infeliz do Divaldo Franco, pessoa digna de respeito e admiração, mas que precipitou-se ao generalizar afirmando que os espíritos que se apresentam com essas roupagens como a do preto-velho são espíritos ignorantes e atrasados. Há pretos-velhos ignorantes e atrasados, mas há pretos-velhos tão adiantados intelectual e moralmente quanto os espírito que se apresentam com aparência européia.
    Devemos lembrar, ainda, que espíritos com pouco discernimento não têm a menor condição de escolherem como e onde reencarnar. São conduzidos a isso por espíritos superiores.

  8. Essas distinções somos nós que fazemos, Edilene. Pela nossa imperfeição moral nos apegamos a conceitos vazios de conteúdo. Por que nascer com a pele branca? Ou amarela? Ou vermelha? Ou negra? Ou baixo, alto, gordo, magro, pequeno, grande, com traços finos ou grossos? Tudo são experiências. Recebemos o corpo que melhor nos convém. Se achássemos que ser negro é carma, haveria inferioridade em ser negro. Mas o espírito não tem raça ou cor. Estagia por diversos corpos, em diversas circunstâncias, evoluindo sempre. Espíritos podem reencarnar em corpos negros como carma; por exemplo, alguém que foi um branco racista reencarna como negro para reajustar seus posicionamentos frente ao Universo. Mas isso não é, de modo algum, uma regra.

  9. Como sempre, Morel, suas explanações coerentes e esclarecedoras. Mesmo sendo tão complexo discutir e opinar tal assunto. Sob o prisma da doutrina lembrei agora dos presidiários, mesmo não tendo em mãos dados exatos, mas se verificarmos podemos constatar que há sim um relevante número de pessoas negras, o que seria isso? Já não sofreram o bastante como escravos e ainda “pediram” para nascer dentro de um destino que os levasse ao submundo dos crimes?
    E os negros que se destacam na mídia, no cinema, no futebol foram escravos que perdoaram os maus tratos?
    A Lei de causa e efeito é justa, cientes somos, no entanto alcançar um entendimento sem tentar descobrir um porquê a tantos fatos de nossa sociedade é tarefa difícil…
    Porém, feliz daquele que não distingue a capacidade do outro por sua cor, devemos amar, respeitar e aceitar a todos, POIS O ESPÍRITO NÃO TEM COR E NEM SEXO!

  10. Morel, boa tarde!
    Existe um “porquê” da pessoa nascer “negra”.
    Nosso corpo físico, nossa aparência não são máscaras emprestadas ao nosso espírito? Seria um carma? Não entendo de onde surgir a pele negra…

  11. Riselia, a humanidade está em constante aprendizado. Todos estamos interligados, nenhuma ação é isolada no Universo. Justiça é a Lei divina, que é Amor. Injustiça é proveniente da imperfeição dos homens, que tentam escapar às Leis de Deus. Cada vez que infringimos as Leis de Deus estamos cometendo uma injustiça, e a correção de rumo provocada pela Lei de causa e efeito é a aplicação da Justiça divina. A cada um segundo as suas obras…

  12. Muito interessante, lendo esse texto, nos faz refletir sobre um passado onde a humanidade passava por um grande aprendizado, sobre esse texto, me apareceram algumas dúvidas, se estamos aqui para aprender e evoluir, seria a escravidão, fruto da ignorância dos homens, expiações de povos com dívidas maiores, ou uma forma de evolução de ambos os lados?… nessa ida e vinda nesse planeta e em outros, foram grandes os dívidas espirituais que os donos de escravos etc tiveram ou terão que dar conta, onde nosso entendimento não alcança, ainda não posso definir o que é injustiça ou justiça!

  13. Legal, mas infelizmente tudo faz parte de uma grande evolução, na época eles jamais viam um negro como um irmão e hoje, graças a Deus, evoluímos e já nos consideramos irmãos, estamos longe de chegar ao fim dessa caminhada, mas acredito que já percorremos uma grande parte do caminho. Existem ainda muitos povos retrógrados, que resolvem tudo na “faca”, isso aqui no Brasil mesmo. Pelo mundo afora, tem a questão dos países árabes, como bom exemplo, parece que não progridem, vivem sempre em guerra, usando o nome de Alá para justificarem seus atos. Quando eu penso em homens “bomba”, fico tentando entender… Ótima reflexão Morel, como sempre!

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