Reforma íntima

Humildade ou humilhação?

Chico Xavier nos deixou uma imagem de humildade à toda prova

O espiritismo prega muito a humildade, tida como um dos valores essenciais do espírito imortal. O problema é que humildade muitas vezes é confundida com humilhação.

Só quem já se elevou acima do turbilhão mundano sabe diferenciar intimamente uma atitude da outra. Não estou falando de conceitos. O dicionário está aí, não me custaria nada consultá-lo. Falo das atitudes daquele que tenta praticar o que aprendeu na teoria, nos livros, nas palestras, nos exemplos.

Quem não se esforça para mudar, quem não se preocupa com a questão, certamente age com mais naturalidade, com mais autenticidade. Se transparecer humildade é porque provavelmente seja realmente humilde, pelo menos no caso observado. Se se portar de maneira humilhante, deve ser porque acredita que é assim, que é a sua natureza, possivelmente não percebe e nem pensa no caso. Mas no caminho da reforma íntima equilíbrio é artigo raro, ao menos para os reformandos incipientes. Na maioria das vezes, em busca da prática da humildade, ou se exibe com orgulho uma falsa humildade (é o paradoxo da humildade: eu sou tão humilde, mas tão humilde, que…), ou se descai para uma humilhação deprimente.

Tenho o maior respeito pela figura e pela obra deixada pelo Chico Xavier. Não conheço, nas suas manifestações, algo que possa ser apontado como desabonador de sua conduta e caráter. Mas seu exemplo de humildade à toda prova deu margem a muita má interpretação. Muitas pessoas veem no espiritismo uma doutrina de conformismo e tristeza, que apresenta o Planeta como um vale de lágrimas. Palavras e expressões que calhavam bem no Brasil eminentemente católico e carola de meados do século passado hoje dão arrepios. Admiro Alziro Zarur, fundador da Legião da Boa Vontade, e sua gravação da Oração de São Francisco é impagável.

Mas o tom de voz sofrido, pungente, que se usava quando o assunto se relacionava com espíritos, é algo impressionante. A conotação de sofrimento, angústia, dor, é inegável. Ainda há espíritas que quando oram em público parece que estão morrendo.

Humildade eleva, humilhação rebaixa. Ser humilde é se colocar no seu lugar. No seu devido lugar, nem mais, nem menos. Ser humilde não é abaixar-se, fazer-se pequeno, sofrer e chorar. É apenas não ser orgulhoso. O orgulho nos impede de ver nossas próprias falhas. A humildade, pelo contrário, facilita a percepção dos mesmos. Não tem nada a ver com humilhação, com coitadismo, com chinelagem de sofrimento.

 Chico Xavier comparava-se a uma formiguinha e  já chamou a si mesmo de verme rastejante. Ele se impôs uma missão. Para cumpri-la teve que vencer a si mesmo, e talvez usasse essas afirmações para combater veementemente qualquer fresta de orgulho ou vaidade. Você se imagina realizador de uma obra como a dele? Será que não teria orgulho? Mas ele era ele, e nós somos nós. Nós não somos vermes rastejantes. Podemos nos ver como formigas num simbolismo de nossa pequeneza frente à imensidão do universo. Fora isso, não há porque depreciarmo-nos. Humildade. Nem acima, nem abaixo.

E consultar, o tempo inteiro, a consciência, guia infalível. Você não consulta o Google a toda hora? O acesso à consciência é instantâneo, ininterrupto. E ela é só sua. Consulte-a, verifique se não está se deixando levar pelo orgulho em suas atitudes. Mas não se humilhe. Nunca. Você é filho de Deus. Deus é Pai. Nenhum pai quer seu filho rastejando.

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5 Comentários

  1. Eu demorei muito tempo para aceitar o espiritismo exatamente por causa desse sentimento derrotista que eu via em muitos centros espiritas.
    Afinal, que bem há em fazer mal a si mesmo. Humilhar-se para mim é isso, utilizar de um cilício na alma.
    Acho estranho ainda existirem algumas pessoas que pregam a humilhação e o “sofrimento vão” no espiritismo.
    Nunca aceitei isto, pois é da natureza humana querer ser feliz. Deus nos fez assim, e na busca dessa felicidade encontramos o caminho de Deus. Bem, comigo foi e está sendo assim.
    Para mim, nós não somos vermes e nem formigas. Somos anjos em formação, e o nosso destino é a grandeza dentro de nossas proporções.
    Excelente artigo Morel, muito obrigado.

  2. Jorge, não precisa sentir muito por expressar a sua opinião. Apenas seria mais produtivo se você expusesse, no artigo em questão, o que lhe deixa entrever que eu não tenho conhecimento de causa. Sem uma crítica mais objetiva, a impressão que fica é que você apenas pensa diferente de mim. Se for assim, isso não é motivo para questionar meu conhecimento de causa. A não ser que você se julgue muito mais conhecedor desta causa do que eu…

  3. Lendo este artigo sobre humildade ou humilhação, cheguei à triste conclusão que o Sr, prezado escritor não sabe o que está escrevendo, e não tem amplo conhecimento de causa, quase que nenhuma.
    Sinto muito, é a minha opinião!

  4. Léia, não chamei os católicos de carolas, só quiz dizer que muitos eram carolas no Brasil de 50, 60 anos atrás. Quanto ao Alziro Zarur, apenas o citei, mas ninguém sairia perdendo se ele fosse espírita. Um abraço.

  5. ‘Palavras e expressões que calhavam bem no Brasil eminentemente católico e carola de meados do século passado hoje dão arrepios.’ Chamar catolico de carola é desrespeitar a crença de alguem e misturar o chico com Alziro Zarur é fazer salada de fruta nao é espiritismo.

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