Comportamento

A humildade espírita

humildade espiritismo

Morel Felipe Wilkon

Ouça este artigo na voz do autor

Alguém disse um dia que a hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude. Mas não é exatamente de hipocrisia que quero falar. Quero falar da busca de equilíbrio no comportamento humano, que tanto nos exige se estivermos realmente dispostos a mudar.

Muitos não querem mudar. Acho que a maioria. O que querem é que a situação mude, que as pessoas mudem, que tudo mude, menos elas mesmas. Se existe um padrão ideal de comportamento devemos conquistá-lo. Não se trata de deixarmos de lado nossas características, não se trata de nos estereotiparmos, de nos tornarmos todos iguais. Pelo contrário.

Ceder contra a vontade não é humildade, é hipocrisia
Ceder contra a vontade não é humildade, é hipocrisia

Justamente para podermos nos mostrar exatamente como somos é que precisamos alcançar um ponto de equilíbrio que nos permita nos manifestar tal como somos sem ferir o próximo. Porque o que mais vemos são dois extremos: Aquele que se mostra por inteiro, sem considerar direitos, sentimentos e conceitos alheios; e aquele que se esconde atrás de uma máscara de indiferença, como se nada lhe importasse, mas que por dentro fica se remoendo.

Comecei falando sobre hipocrisia. É que a palavra hipocrisia se refere a máscara, a essa máscara que alguns nunca tiram da cara, e que todos nós experimentamos uma vezinha ou outra. A palavra hipocrisia vem do grego e designava, originalmente, o ator de teatro. Quando Jesus chamava os fariseus de hipócritas era o mesmo que hoje chamarmos alguém de “artista”, querendo dizer com isso que a pessoa finge, que ela representa como um artista.

Mas a designação pejorativa da palavra só se consolidou na Idade Média. Hoje hipócrita é um palavrão dos mais feios. E nós somos hipócritas mais vezes do que pensamos. Quando você cede no seu ponto de vista, sabendo que ele é verdadeiro, você acha que está sendo humilde? Eu, particularmente, evito discussão. Quando discutimos esquecemos a busca da verdade e só queremos que prevaleça o nosso ponto de vista.

Mas uma coisa é evitar discussão, outra coisa é fazer de conta que aceita o ponto de vista alheio e ficar se remoendo por dentro. Isso acontece muito em querelas religiosas. Alguns espíritas, por força do preconceito, têm medo de assumir sua postura. E aceitam os argumentos fajutos de pessoas descrentes do Espiritismo. Fazem cara de banana e fingem que concordam. Cedem externamente e se revoltam intimamente. Isso não é humildade, longe disso. Isso é hipocrisia grossa. Para com os outros a para consigo mesmo.

Não estou condenando quem faz isso. Eu já fiz coisas do gênero. Na tentativa de sermos humildes fazemos coisas muito ridículas. Ceder contra a vontade não é humildade, é hipocrisia. Ceder para evitar discussão, ser condescendente, dependendo das circunstâncias é atitude madura e meritória. Ceder por medo de assumir sua postura é covardia. Ser humilde não é ser covarde, ser manso não é ser medroso. Um cavalo para ser encilhado precisa ser domado. Depois da doma ele fica manso, e sua força e intrepidez podem ser controladas e direcionadas. Mas o cavalo não deixa de ser forte e intrépido por ser manso. Não se torna medroso por ser manso.

Acho que o conceito de humildade foi muito deturpado. É verdade que a palavra deriva do latim humus, terra. Por causa disso, talvez, se pense que ser humilde é rebaixar-se, é andar se arrastando. Mas as palavras homem e humanidade também derivam de humus. Isso se deve ao fato de os antigos considerarem que o homem veio do barro, da terra, do humus. Ser humilde, então, é ser como se é, é ser conforme a sua natureza, ser apenas mais um homem, indivíduo da humanidade. Ser humilde não é rebaixar-se, ser humilde é ser exatamente como se é, nem acima, nem abaixo.

Ser humilde não é andar se arrastando, falando mole e aceitando desaforos e engolindo absurdidades. Devemos defender as verdades que nos são caras. Para isso é possível que tenhamos que ser firmes, enérgicos. Claro que não vamos perder tempo e energia discutindo ou dando conversa pra quem nem sabe direito o que pensa. Mas algumas vezes nos vimos na contingência de ter que defender nossas verdades, as posturas que adotamos. E isso exige energia e coragem. Isso são virtudes, não defeitos. Defeito é covardia, moleza, rebaixamento de si mesmo. Essas fraquezas não condizem com a grandeza de Deus. 

Conheça meu canal no Youtube!

Artigo AnteriorPróximo Artigo

14 Comentários

  1. Polyane, desde que você não esteja sufocando a si mesma, desde que você não esteja indo contra os seus princípios, não vejo nada de negativo nesta sua nova postura. É um ato de humildade abrir mão de fazer prevalecer nosso ponto de vista em tudo. Desde que não estejamos mentindo pra nós mesmos…

  2. Olá Morel! Estou com uma dúvida, de uns tempos pra cá resolvi tomar um posicionamento diferente em relação ao meu cônjuge. Praticamente todas as vezes em que iniciamos uma “discussão” em que nossas opiniões são bem divergentes acaba em um desconforto muito grande, geralmente da parte dele que se isola, emburra, dá as costas, essas coisas. Resolvi então não entrar mais nessas discussões (ainda mais que são por coisas banais), uma vez que fico muito mal vendo ele agindo assim, agora dou razão a ele e evito expor o que penso. E então, estou sendo humilde ou temerosa?

  3. Menino, era tudo o que eu precisava ouvir (ler )hoje. Você é mesmo um enviado de Deus. Só tenho ganhado lendo seus artigos. Obrigada e que Deus continue te abençoando…

  4. Jorge, só espíritos mais evoluídos não temem a rejeição por parte dos outros. A maior parte dos nossos comportamentos, desde a infância, são no sentido de nos “integrarmos”, de fazermos parte de um grupo. Na adolescência isso fica ainda mais evidente. Muitos acabam se despersonalizando por falta de desenvolvimento de valores e atitudes próprios.
    Somos seres milenares, e já aprontamos muito em outras vidas. Isso naturalmente nos trouxe conflitos que precisamos vencer…

  5. Silvia, não é conveniente cedermos por medo de assumirmos os nossos pontos de vista. Se estamos comprometidos com a reforma íntima, procuramos adotar uma postura adequada. Não devemos abrir mão da postura que achamos ser correta por medo, por insegurança, confundindo essa cedência com humildade. Renunciar é espontâneo, é doação de si mesmo, é sentimento cristão. Renunciar a uma pessoa, a um desejo, a um emprego, a uma ocupação qualquer em nome de algo maior é uma atitude meritória. Não pode ser confundida com fraqueza de caráter.

  6. Felipe mais uma vez trouxe uma ótima reflexão, mas me tire uma dúvida, humildade não é ceder, mas e quando renunciamos? É a mesma coisa? Obrigada.

  7. Um dos grandes erros que sempre cometi é querer mudar para ser aceito, fazendo coisas que não gosto de fazer, e mentindo até sobre meus gostos, ser diferente sempre me incomodou e eu quis muito fazer parte de um grupo para evitar sentir desajustado, na verdade ainda tenho grandes dificuldades em me aceitar como eu sou, “fora dos padrões”, penso que as pessoas às vezes não se assumem como são por medo de rejeição, mas como diz um poema de Fernando Pessoa, “Quando tirei a máscara e olhei no espelho, vi o quanto havia envelhecido”. Com isso entendo que às vezes queremos tanto mudar e corremos como loucos atrás disso que quando olhamos no espelho depois de um tempo vemos que não somos mais nós mesmos e que perdemos nossa individualidade, preservando apenas a máscara externa… esse texto me fez refletir.
    Abraços

  8. Bom dia Morel, sábias palavras. Muitas vezes confundimos humildade com humilhação.
    Fiquemos em paz.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.