Evangelho

Jesus e os vendilhões do templo

Jesus e os vendilhões do templo
Jesus e os vendilhões do templo

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Sempre que se estuda o evangelho de Jesus nota-se um certo desconforto quando se menciona a passagem em que Jesus expulsa os vendilhões do templo.

Que imagem você faz de Jesus?  Como você acha que ele era? Sei que o que realmente importa é o seu legado, o ensinamento que deixou pra nós, a revelação de Leis cósmicas eternas. Mas o modo como você o imagina, a maneira como você supõe que Jesus fosse quando esteve encarnado entre nós, pode alterar a sua compreensão de algumas noções de cristianismo muito abordadas pelo espiritismo.

Longe de mim a pretensão de querer saber como era e como não era Jesus. Não quero que você mude de ideia, nem quero convencê-lo de nada. Apenas ofereço a você minha reflexão.

Sempre que se estuda o evangelho de Jesus nota-se um certo desconforto quando se menciona a passagem em que Jesus expulsa os vendilhões do templo. Jesus foi a Jerusalém na época da Páscoa judaica e havia inúmeros mercadores no templo, vendendo seus animais para os sacrifícios que eram oferecidos a Deus. Os quatro evangelhos relatam o fato. João afirma que Jesus teria feito um chicote para expulsar os camelôs da época.

Quase todos os colegas espíritas que conheço acham que esse fato não ocorreu. Não poderia ter ocorrido, porque essa imagem de Jesus não combina, não “fecha” com a imagem de Jesus que eles têm em suas mentes. Que imagem é essa? Será que não é a imagem do Jesus loiro, de olhos azuis e cabelos sedosos? Um Jesus italiano bem ao gosto do período renascentista?

Falam demais na doçura de Jesus, na meiguice de Jesus. Sinceramente, leio os evangelhos desde os oito anos de idade e nunca vi essa doçura toda. Até parece que pra ser bom (sendo que ele mesmo disse que bom, mesmo, só Deus!) tem que ser meigo e delicado! Quantas vezes Jesus xinga os fariseus de hipócritas e raça de víboras? Eu nunca contei, mas são várias vezes. Será que ele dizia isso com meiguice e suavidade, com a voz doce e os olhos tristonhos?

Jesus é a imagem mais enérgica que eu conheço. Diferente de Sócrates, Buda, acho que até de Ghandi, que não conheço muito. Jesus era um líder enérgico e forte. A maneira com que ele produzia curas, o modo como ele expulsava os espíritos perturbadores, até o jeito como ele resistiu às tentações de Satanás, no Monte das Oliveiras, não deixam dúvidas (pra mim, é bom lembrar) de que ele não era essa doçura que tentam retratar.

Eu li, não lembro onde, uma versão de um colega espírita sobre esse episódio da expulsão dos mercadores. Esse colega diz que o chicote de cordas que Jesus fez simboliza nossas imperfeições, as cordas eram os nossos defeitos que ele enrolou pra fazer um chicote. Eu acho isso uma forçação de barra terrível!

Sei que cada um interpreta os evangelhos de acordo com o seu adiantamento moral. Conforme vamos compreendendo as coisas do espírito, vamos adquirindo condições de entender certas parábolas que até então nos pareciam obscuras e de significado duvidoso. Concordo plenamente com quem pensa assim. Só que não podemos escolher o que serve e o que não serve. Só porque determinado fato narrado nos evangelhos não se coaduna com aquilo que gostaríamos que fosse verdade, descartamos essa passagem como falsa. E botamos a culpa na Igreja católica que deve ter “implantado” tais e tais passagens para servirem ao seus interesses.

Ou os fatos ocorreram ou não ocorreram. Ou houve um Jesus humano ou não houve. Eu acho, sim, que Jesus expulsou os camelôs bagunceiros e acho que foi muito bem feito. E não acho que isso seja violência da parte dele. Um pai que age duramente com seu filho rebelde e desobediente está sendo violento? Quando a lei determina e a polícia cumpre que determinados componentes da sociedade sejam afastados, presos para evitar novos crimes, a lei e a polícia estão sendo violentas? Se alguém invade a sua casa você não vai expulsar o invasor?

Pra quem gosta de André Luiz, sua obra está cheia de exemplos em que indivíduos são afastados ou impedidos de acessar determinados lugares pela força. Força não quer dizer violência. Bondade não quer dizer complacência. Você ficaria de braços cruzados se presenciasse um crime sabendo que poderia detê-lo? Isso não seria conivência? Não seria uma fraqueza de caráter?

Jesus era jovem e havia sido carpinteiro até pouco tempo antes de começar a pregar. Era um homem forte e viril, não era um loirinho triste de olhos caídos. Essa imagem que inventaram dele gera muita confusão. Querendo imitar essa imagem doce e suave, podemos nos tornar compactuantes com o crime e com erros graves que podemos evitar. Energia é virtude, não defeito. 

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21 Comentários

  1. Apenas penso que atitudes coléricas não se coadunam com a imagem meiga que temos de Jesus. Como pode ele nos ensinar que devemos ser mansos e agir de forma contrária a este ensinamento?

  2. Angonio, realmente não li. Li muitas opiniões diferentes, esta é a minha, ao menos por enquanto. Mudo de ideia sempre que encontro outra melhor.

  3. Com todo o respeito, me parece que o senhor não leu as obras de Amélia Rodrigues, psicografadas por Divaldo.

  4. Oi Morel!
    Entendo perfeitamente o seu “preconceito” com Ramatis, pois aconteceu o mesmo comigo. Vou explicar-lhe: A primeira obra de Ramatis que li, foi FISIOLOGIA DA ALMA, no ano de 1981, pois como relatei anteriormente, era um rato de sebos e livrarias. rsrs
    O assunto que me fez adquirir aquele livro foi “Problemas com o alcóol”. Meu pai era alcoólatra e isto sempre mexeu muito comigo. Tive uma experiência num centro espírita de Ramatis que me foi muito cara. Para não fugirmos ao assunto, conto-a em outra ocasião.
    Logo após a leitura da obra citada, li A VIDA NO PLANETA MARTE. Aí a dúvida me assaltou e, como já li em alguns artigos, não fui o único.
    Os Espíritas Kardecistas têm, sim, restrições a Ramatis. Há os mais ortodoxos, que não creem em nada que “Kardec não disse”. Mas isto também é um outro assunto.
    Após este livro fui lendo todas as outras obras que nos chegaram pela mediunidade de Hercílio Maes e não encontrei mais ressalvas que me gerassem dúvidas quanto à grandeza deste Espírito. Não posso afirma-lhe que é verdade tudo o que li, mas que encontrei o mais alto grau de coerência, isto é inegável e irrefutável.
    Também não posso afirmar se o tipo de mediunidade auditiva de Hercílio Maes – Ramatís ditava-lhe as respostas que lhe eram apresentadas e as mesmas eram datilografadas – é um tipo de mediunidade em que o médium tenha uma influência maior na comunicação do que, por exemplo, na psicografia. Não me sinto capaz de dar opinião sobre isto.
    Causou-me espanto sua resposta, pois pensei, ao ler seus artigos, que você tivesse contato com as obras de Ramatis. Por isto, lhe disse que gostaria de dirimir algumas dúvidas .Ah! mas não pense que se livrará de mim assim tão facilmente! Amizades, como você, não se desperdiçam em hipótese nenhuma!
    Obrigado pela resposta e um abraço.

  5. Claudio, tive preconceito em relação a Ramatis por bastante tempo. Mudei de opinião há pouco. Ainda não li O sublime peregrino. Por coincidência, dois dias atrás insistiram comigo para que lesse. Este ano não terei esse tempo, talvez no próximo…

  6. Bom dia Morel.
    Entendi o que você quis dizer. Quando me refiro à frase “Não vim subverter a lei, mas cumpri-la”, não me refiro à Legislação Judaica, apesar de que Jesus, sendo judeu, respeitava as Leis da Torá. Com relação à frase, creio que Ele referia-se às Leis Cósmicas que regem o Universo. Creio que você já leu “O SUBLIME PEREGRINO” de Ramatis. Se leu, gostaria de ter a sua opinião acerca de alguns tópicos. Agora que o descobri, aguenta… rsrsrs.
    Um abraço.

  7. Claudio, esta é uma das poucas passagens citadas nos quatro Evangelhos, logo, deve ser verdadeira. Jesus veio cumprir a Lei de Deus, não a lei dos homens. Ele descumpria a lei dos homens constantemente. Quando me refiro a possíveis características físicas de Jesus, não estou sugerindo qualquer enfrentamento físico, apenas demonstrando sua imagem enérgica.

  8. Boa noite, Morel. Mais um tema interessante e polêmico.
    Na minha opinião, este fato na vida do Mestre foi “arranjado” pelos compiladores dos Evangelhos, em que “Jesus expulsou os vendilhões do templo, dizendo que não fizessem da casa do Pai covil de ladrões”.
    Srs., a utilização do pátio do Templo de Jerusalém, por mercadores, era uma prática antiga e autorizada pelo Sumo-Sacerdote, uma vez que aí eram vendidos frutos, incenso, animais etc. que eram oferecidos a Deus em oferendas ou holocausto, mercadorias, estas, que contribuíam com sua venda, para o Templo e para os integrantes do Sinédrio Judaico.
    Ora! Se esta prática era autorizada e Jesus tinha como regra “não subverter a Lei, mas cumpri-la”, não poderia indignar-se com tal prática, uma vez que era lícita, e era praticada no Pátio dos Gentios ,e não dentro do Templo propriamente dito.
    Em segundo lugar, mesmo sendo fisicamente forte, uma vez que a carpintaria, nesta época, só poderia ser exercida por homens com esta característica, Jesus estava só, e os mercadores não ficariam passivos diante de um galileu que se atrevesse a dar-lhes este prejuízo. Para um judeu, esta palavra é um tabu. rsrsrrsr. Não é verdade?
    Portanto, na minha opinião, este episódio foi apenas uma metáfora inserida nos Evangelhos, para demonstrar o cuidado de Jesus com as coisas de seu Pai, fato este que também estranho, uma vez que Jesus pregou raríssimas vezes no Templo, preferindo a Natureza e os arrebaldes do lago Tiberíades.
    Um abraço.

  9. Visitei o seu blog, Rangel. Parabéns e boa sorte. Na verdade, exige mais trabalho do que sorte… Obrigado pelo comentário. Concordo com a sua visão, mas temos que entender que cada um percebe e analisa de acordo com a sua experiência pessoal. Há pessoas com experiências muito diferentes das nossas…
    Um abraço.

  10. Gostei muito do texto, e concordo com o colega aí, as pessoas veem Jesus como Deus e não é bem por aí, ele é sim O CRISTO, aquele que nos auxilia em nossa evolução, nosso irmão maior e um exemplo a ser seguido, aquele que alcançou o estágio de comandante do nosso planeta e nos ama incondicionalmente e nos ensina que a bondade nada tem a ver com abaixar a cabeça, e ser enérgico com o que é certo é modo de mostrar que com o Bem não há fraqueza. Lembro de muitos trabalhos em nosso centro que eu não entendia o porquê de as entidades ou doutrinadores terem uma ação mais enérgica, mas com o tempo compreendi o quanto é necessário e sua lembrança das obras de André Luiz, é ótima porque ensina muito isso.
    Parabéns pela frase: Força não quer dizer violência. Bondade não quer dizer complacência. Você ficaria de braços cruzados se presenciasse um crime sabendo que poderia detê-lo? Isso não seria conivência? Não seria uma fraqueza de caráter? – é perfeito.
    Excelente blog e quando possível visite meu cantinho também, tô começando agora mas deixando o coração fluir.
    Abraços
    Rangel
    http://www.libertandopalavras.blogspot.com.br

  11. Hele, eu acredito que o Evangelho tem um sentido cósmico, profundo, e nisso se enquadra a sua opinião. Você está certa ao afirmar que não podemos levar ao pé da letra. Só que houve um Jesus histórico e episódios históricos. Mas continue com a sua opinião, ela é bem acertada.

  12. hahahha eu estava no trabalho quando li o artigo e havia passado os olhos na parte quando relata sua amiga. Foi o mesmo que eu disse. Bom, se não for uma representação, consideramos então que o significado seja de respeito ao que é sagrado. =) abraço

  13. Hele, gostei do seu modo de ver, mas esta passagem, diferente de muitas outras, é citada nos quatro evangelhos como um acontecimento real. Não acho que se trate de metáfora. Obrigado pelo comentário, Hele.

  14. Boa tarde Morel
    Excelente artigo, concordo com você! Claro que Jesus é nosso irmão maior de bondade e misericórdia, mas também acredito nessa postura de como um pai que vendo seu filho trilhando caminho errado, toma a frente com atitude mais dura, pois infelizmente é assim que aprendemos, como você falou, Morel, tem muitas passagens no evangelho em que Jesus teve atitude mais forte porque era necessário naquele instante, era uma época de muita dureza de coração, tempos difíceis de entender um carpinteiro falando de amor. Maravilhoso ensino, isso sim! Não pensemos que Jesus não era doce e sereno, claro que é! E segue trabalhando e nos amando.
    Mas seremos cobrados pelos nossos atos, mas DEUS nosso pai sempre nos ampara! Lembrando que a sementeira é livre, porém a colheita é obrigatória.
    Por mais erros que tivermos, DEUS nos dará oportunidade de consertar e recomeçar. Só peço a Deus que essas lindas palavras penetrem também no meu coração, limpando os enganos.
    Abraço
    Denise

  15. Compreendo esta passagem como uma metáfora. Expulsar os mercadores = expulsar a legião de egos que existiam dentro dele mesmo. Acho que no evangelho se deturpa muito. Os próprios salmos acusam muito os outros. Quem leva ao pé da letra acaba se confundindo e acabando na maledicência também. Compreendo Jesus como calmo sim, mas firme. Infelizmente em nossa vida devemos ser radicais se quisermos alcançar um degrau acima. Não não podemos ser gulosos ( nem no natal) Não podemos ser gananciosos ( nem com o conhecimento) etc. É preciso expulsar os mercadores, se afastar de muita gente ( num sentindo mais literal ) e sair desse grande comércio que é o mundo. É radical, não parece manso, mas é a única maneira de evoluir.

  16. Bem colocado esse texto, o que as pessoas ainda não procuram entender é que Jesus não é Deus, Jesus é o filho assim como nós, e por ele ser um Espírito de Hierarquia acredito sim nessa energia de postura, pois ela não necessita de violência, temos ainda um longo caminho a percorrer para chegarmos à perfeição e um dia estar ao lado dele. Abraço.

  17. Fofucha, não há por que se desculpar, pois se trata apenas de um modo de ver. Além disso, estou de acordo com a maneira com que você sente Jesus. Mimha intenção é deixar claro que a bondade de Jesus não deve ser confundida com complacência. Obrigado por sua opinião.

  18. Desculpas amigo, em partes não concordo com sua forma de ver Jesus, acredito sim que não devemos achar que por ele ser um Deus todo rico em bondade e misericórdia é obrigado a condizer com o pecado sem arrependimento, a insistência no erro achando que Deus vai perdoar sempre se o arrependimento e a mudança íntima não for feita, enfim, Deus perdoa se quisermos mudar de vida, mostra o caminho para quem procura. Eu prefiro e desejo continuar vendo e sentindo esse Deus de rosto sereno, que sempre que eu vacilar vai me dar mais uma chance mas ao mesmo tempo me advertindo de que não agi de maneira correta. Quem nos culpa é a consciência moral, Deus nos acolhe.

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