Tragédia de Santa Maria

A tragédia de Santa Maria e o sentimento de culpa

A tragédia de Santa Maria e o sentimento de culpa
A tragédia de Santa Maria e o sentimento de culpa

Li relatos de que alguns pais e mães de vítimas da tragédia de Santa Maria se questionam, se cobram, se perguntam se não poderiam ter evitado o que aconteceu. Mas o sentimento de culpa não leva a nada.

As religiões de um modo geral pregam que seremos punidos pelo mal que fazemos. O espiritismo acrescenta que seremos cobrados não só pelo mal que fazemos, mas pelo bem que deixamos de fazer.

Esse ensinamento é embasado na história de Lázaro, que Jesus nos conta no Evangelho. Lázaro era um mendigo, cheio de feridas e esfomeado, que vivia à porta de um homem muito rico. Depois que os dois morreram, Lázaro foi para o céu e o rico para o inferno. Lá do inferno, o rico morria de sede e implorava para que deixassem Lázaro levar água para ele, nem que Lázaro só molhasse a ponta do dedo para refrescar a sua língua. E foi informado de que isso não seria possível. Ele, o rico, havia recebido muitos bens na vida; e Lázaro somente males. Além disso, havia agora um abismo intransponível entre eles.

O rico não foi punido por fazer o mal. Ele não fez o mal. Mas deixou de fazer o bem, deixou de socorrer Lázaro, que vivia à sua porta, esfomeado e ferido.

Você já sabia disso, não sabia? Não é novidade pra você que devemos fazer todo o bem ao nosso alcance. Eu não escreveria sobre isso, pois você sabe muito bem disso.

Acontece que estamos engatinhando nas virtudes. Somos aprendizes repetentes. Há quanto tempo você acha que nós estamos aprendendo as mesmas coisas? Em quantas reencarnações você já deve ter lido as parábolas de Jesus no Evangelho? Cometemos erros sem calcular suas consequências; cometemos erros grandes pensando que são erros pequenos; cometemos erros sem saber que são erros. Estamos melhorando, mas nosso passo é lento. E enquanto não internalizamos o fazer o bem, enquanto não nos tornamos naturalmente caridosos, estamos sujeitos à culpa.

Quando eu tinha onze anos minha mãe ficou grávida. Vivíamos tempos difíceis. A expectativa, no entanto, era enorme. Minha mãe, meus irmãos e eu escolhíamos nomes, fazíamos planos, imaginávamos situações. Torcíamos pra que viesse uma menina, já que éramos três irmãos homens. Veio uma menina! Nasceu uma menina, mas não veio à nossa casa, ficou hospitalizada com problemas de saúde. Não me diziam o que era. Na época eu era adepto da Seicho-no-ie. E me disseram pra fazer o Shinsokan e ler a Sutra Sagrada todos os dias, pra minha irmã ficar boa.

A mãe passava os dias no hospital. E eu, pela primeira vez na vida, tinha tanta liberdade. Aproveitava os dias pra ir ao rio, coisa que queria fazer há muito tempo e não podia. Tentei ler a Sutra algumas vezes, mas não conseguia me concentrar pensando no rio que estava me esperando.

Aos vinte e um dias de vida, minha irmã desencarnou. Não cheguei a vê-la com vida. No velório, olhando aquele corpinho duro dentro do caixãozinho branco, pensava nas esperanças desfeitas e na Sutra que não li como devia.

Me senti culpado por não ter feito o Shinsokan e lido a Sutra Sagrada. Quem sabe se eu tivesse feito tudo direitinho, algum milagre não teria acontecido? Pensei assim por um bom tempo.

Minha intenção não é contar uma história comovente. Recebo relatos semelhantes quase todos os dias. Muitas e muitas pessoas se culpam pelo que não fizeram, pelo que poderiam ter feito, pelo que – agora elas sabem – deveria ter sido feito.

Li relatos de que alguns pais e mães de vítimas da tragédia de Santa Maria se questionam, se cobram, se perguntam se não poderiam ter evitado o que aconteceu. O que poderiam ter feito? Impedido seus filhos de saírem de casa? Acompanhado seus filhos à festa? Acompanhado os preparativos para a festa e conferido normas de segurança? Claro que não. Os filhos eram estudantes responsáveis, e só se fala em normas de segurança agora, ninguém costuma se preocupar com isso.

Imagino também o sentimento de culpa dos donos da boate, o desespero por não poder voltar atrás e tomar cuidados que geralmente não são valorizados. Como a sensação de culpa deve estar rondando suas famílias, esposas, filhos.

Os funcionários, os músicos, tantos parentes e amigos dos que partiram, tanta gente gostaria de poder voltar no tempo e alterar o curso dos acontecimentos.

Mas a culpa, por si só, não leva a lugar algum. Sendo a culpa legítima ou não, que ela se transforme em vontade de fazer o certo. Que a energia negativa da culpa seja transformada em energia positiva , criadora, útil, construtiva, que possa beneficiar alguém. E que as consciências sejam aliviadas.

A única utilidade da culpa é nos levar ao arrependimento por um grave erro cometido. Fora isso, a culpa é extremamente prejudicial. E a vida é agora. O passado não é a vida. O seu passado está em você, integrou-se a você. Mas a sua vida é agora!

Para um entendimento da tragédia de Santa Maria sob o ponto de vista espírita, clique aqui.

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5 Comentários

  1. Boa tarde Morel.
    Farei logo mais à noite no centro, exposição sobre “Mortes coletivas”. O tema foi escolhido por mim, por despertar muito interesse, tanto de nossa parte, como dos frequentadores da casa, que nos abordam repletos de dúvidas. Seus artigos têm me ajudado muito. Agradeço, portanto.
    Muita Luz.

  2. Sim, também tenho pensado nisso, Bebel. Será preciso que façam uma mudança radical em suas vidas para transformarem esse sentimento.

  3. Eu acho, Morel, que a dor que os donos da boate e os músicos estão tendo agora é maior ou igual ao das famílias que perderam seus filhos. O tempo pode não curar tudo, mas alivia as dores da perda. Mas e a culpa? Eu acho que viver com uma culpa tão grande assim deve ser pior do que a morte. Você ficar pensando no que poderia ter feito e não fez, e em quantas famílias estão chorando por isso. Nossa, eu acho que essas pessoas vão precisar de muita assistência psicológica e oração pra voltarem a caminhar nesta jornada. Que Deus abençoe a todos eles.

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