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Liberdade religiosa

mão iemanjá

Morel Felipe Wilkon

Artigo publicado originalmente em 15/11/2012

A Proclamação da República, que se comemora hoje, pode não ter nenhum sentido especial pra você, mas foi a partir deste fato histórico que teve início a liberdade religiosa, sendo legalizados os cultos religiosos no Brasil. Durante o período monárquico, a religião oficial do Brasil era o catolicismo. Até havia uma chamada liberdade de crença, mas não havia liberdade de culto.

Chega a ser engraçado falar em liberdade de crença. Será que se pode proibir alguém de crer? Claro que não. No pensamento alheio ninguém manda. Mas quem realmente sofria com a falta de liberdade religiosa eram os negros. Muitos eram proibidos de praticar suas religiões de origem. Alguns senhores de escravos, muito complacentes para os padrões da época, permitiam alguma manifestação religiosa, mas impunham que os negros se cristianizassem.

Liberdade religiosa

Foi assim que começou o sincretismo religioso; a mistura de santos católicos com orixás africanos. Com a abolição da escravatura e o fim da religião única, os negros passaram a se reunir em lugares mais discretos e afastados para viverem sua religiosidade. Mas houve muita perseguição sobre as religiões africanas, sob os mais variados pretextos.

Pais e mães de santo eram frequentemente acusados de abrigar foragidos da polícia, de provocar desordem, de fazer barulho excessivo… Com o surgimento da umbanda, em 1908, a perseguição aumenta. A maioria das casas de umbanda ou de religião de nação africana passa a se autodenominar de “centro espírita” ou “centro espírita de umbanda” como um meio de driblar a perseguição da polícia.

O resultado disso foi uma grande confusão e mistura de conceitos. Para muitas pessoas, até hoje, espiritismo, umbanda, batuque, candomblé, é tudo farinha do mesmo saco. Se quiser, leia aqui o artigo Espiritismo e umbanda. Conheço muitos espíritas que têm medo ou vergonha de assumir sua postura religiosa. Temem a reação da família, dos parentes, dos vizinhos, dos colegas. Como se a opinião dos outros tivesse alguma importância quando tratamos de nossas próprias crenças e convicções filosófico-religiosas.

É que ainda há muito preconceito, principalmente em lugares pequenos, onde todo mundo se conhece. Frequentei a umbanda e o batuque na infância e adolescência, e sei que o preconceito é forte. Alguns confrades espíritas se arrepiam só de ouvir falar de umbanda… Mas julgam sem conhecê-la.

Não tenho os dados do IBGE, mas sei que o número de espíritas aumenta cada vez mais. Não só em quantidade de adeptos. Muitos começam a se assumir como espíritas só agora. Muitos só agora criam coragem de declarar que são espíritas. Até pouco tempo atrás, frequentavam o espiritismo mas se declaravam de acordo com a religião em que foram batizados.

O Brasil é o maior país espírita do mundo, e os conceitos básicos do espiritismo vão se propagando rapidamente. Muitos adeptos de outras religiões acreditam em reencarnação e na possibilidade de comunicação entre encarnados e desencarnados. Conceitos importantes como A Lei de causa e efeito, que muitos chamam de carma, são difundidos entre religiosos de todos os matizes.

O Brasil está deixando de ser um país de analfabetos, a informatização vai se alastrando entre a população. Milhões e milhões de pessoas têm acesso a informações que há bem pouco tempo eram exclusividade de alguns poucos privilegiados. Vivemos um processo de ebulição nos costumes, na política, nas artes, nas comunicações e nas religiões. Observe a imensa propagação de diversas denominações religiosas nos meios de comunicação, principalmente a televisão. Note o crescimento fabuloso de algumas igrejas. O Brasil passa por uma revolução em sua trajetória. Quem preferir ver o lado negativo disso tudo terá muito o que olhar. Mas quem quiser ver o resultado benéfico que vai sair dessa efervescência terá diante dos olhos o cenário de uma profunda mudança de valores. O brasileiro vai perder o medo e o complexo de inferioridade. É crer para ver.

A liberdade que vivemos hoje não tem precedentes. Esta é provavelmente a sua primeira reencarnação com essa liberdade de escolha e de manifestação do pensamento. Valorize a liberdade religiosa, seja você espírita ou não.

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14 Comentários

  1. João, é claro que o preconceito pregado por religiosos de mente pequena são prejudiciais neste sentido. É verdade que, apesar de serem prejudiciais em alguns aspectos, são benéficos em outros.
    A sua postura está correta. Você se submeteu a acompanhá-la à sua igreja e certamente, de sua parte, haveria harmonia e respeito no aspecto religioso entre vocês.
    Não podemos abrir mão de nossas certezas. Sei de pessoas que sufocam sua maneira de pensar submetendo-se totalmente ao cônjuge, para evitar desentendimentos, mas que não conseguem ser felizes por estarem desrespeitando a si mesmas, ao seu íntimo.
    Há preconceito em todo lugar, mas nem todo mundo é vitima do preconceito. Assim como há fungos, vírus e bactérias por toda arte e não são todas as pessoas que adquirem doenças. Por que as doenças são do espírito, então a pessoa espiritualmente doente irá se contagiar, e as outras não. Assim, se você é vítima de preconceito, provavelmente em outras existências você foi preconceituoso, hoje deve aprender sobre o valor da liberdade de pensamento e crença sentindo o quanto é prejudicial a intolerância e a ignorância.
    Seja forte; compreenda os que não estão preparados para compreender nada além do que o seu líder religioso permite e ordena.

  2. Morel, apesar de termos a liberdade religiosa nem sempre somos respeitados. Eu tive um relacionamento de 1 ano e 7 meses que terminou devido a pressões, sobretudo de minha ex-sogra, que certo dia sentou comigo e disse que eu nunca daria certo com a filha dela porque eu creio em “demônios” por ser umbandista e frequentar também o espiritismo. Alem disso, ela disse que me aceitava, mas que com certeza a filha dela não casaria ou seria feliz com alguém que não seguisse os caminhos de Deus. E certo dia, mesmo comigo e minha namorada passando por cima de tudo isso, eu me tornei um fardo para a minha namorada também. Não por brigas, por falta de amor ou desavenças, pois sempre fomos melhores amigos há mais de 4 anos, mas porque eu não vivia a Igreja – protestante – e o Deus dela e, por mais que hoje doesse, isso seria por um futuro que, para mim, ainda não chegou. Eu sempre fui algumas vezes à Igreja com ela, pois sempre senti Deus em qualquer lugar onde se prega o amor, apesar de ela nunca, em hipótese alguma, ir ao Centro comigo.
    Qual postura eu devo assumir diante de tais fatos? Eu só aceitei, buscando não cultivar sentimentos ruins em mim. O preconceito desta forma se encaixa na questão 842 do Livro dos Espíritos e torna esta forma de culto, de certa maneira, perniciosa? Sou jovem, muitas vezes, tem sido difícil lidar com o preconceito não somente deste caso, mas de muitos amigos, em geral protestantes, que se afastaram mesmo depois de anos de amizade pelo simples fato de ter uma religião diferente.

  3. Sergio, não há nada a ser desculpado.
    A proteção espiritual, em qualquer lugar, é proporcional ao merecimento das pessoas. Qualquer ambiente religioso, mesmo centros espíritas, terão a proteção a que os seus frequentadores fizerem jus. Sei de centros espíritas que perdem totalmente a proteção pelo descuido permanente dos seus membros. Os benfeitores espirituais não interferem em nosso livre-arbítrio. Num centro espírita, por exemplo, eles formam uma barreira magnética em torno da casa, fazem a assepsia do lugar, mas se os trabalhadores da casa não vigiam os seus pensamentos, dão acesso aos espíritos ignorantes ou mal-intencionados que encontram “brechas magnéticas” através dos pensamentos e sentimentos baixos destes trabalhadores. Nas igrejas o processo é o mesmo. Se o líder religioso não for digno, e se os frequentadores estiverem preocupados apenas com questões materiais, não há como a espiritualidade manter o seu trabalho de proteção. Nós fazemos as nossas escolhas.
    Por outro lado, sempre há auxílio disponível para quem o queira realmente. Uma pessoa que esteja sinceramente em busca de ajuda espiritual pode sentir grande paz numa igreja como a relatada por André Luiz. Os espíritos estão em toda a parte. Buscamos um lugar específico, como um centro espírita ou igreja, apenas como meio de concentrar energias e reunir espíritos encarnados e desencarnados afins.
    Um abraço!

  4. Morel, mais uma vez gostei muito do seu artigo. Mas falando sobre religiões, me lembrei de algo que li no livro psicografado por Chico Xavier de André Luis, “Libertação”, não sei nem se o comentário é apropriado neste artigo, mas…

    Em Libertação, André Luis narra sua experiência à casa de uma senhora de nome Margarida em que se encontrava doente, mas na realidade muito obsediada por espíritos vingativos e de mais baixo grau. Não vou entrar em detalhes, mas, André Luis relata que acompanhou esta senhora e o Marido a uma missa “católica” e lá observou que a igreja se encontrava muito cheia, principalmente de desencarnados. O ponto de admiração minha, é que estes últimos eram do mais baixo grau de evolução e desordem. Fiquei pensando, talvez eu não tenha compreendido bem a leitura, mas o pouco que entendi me gerou dúvidas, a casa de oração católica, a santa missa, não são protegidas por benfeitores ou espíritos de mais elevado grau do plano superior? Chico Xavier disse em entrevista ao programa “Pinga Fogo” que quando frequentava a missa na igreja católica, observava vários prodígios do plano maior, principalmente na distribuição eucarística; Estariam os frequentadores ou crentes católicos, desprovidos de proteção? Isso também pode acontecer em outras religiões? Pessoas indo aos cultos, missas, reuniões religiosas de toda ordem, sem saber que a eficácia ou a ajuda não é predominante? Já fui católico, desde criança até o final de minha adolescência, descobri o espiritismo e me identifiquei de imediato, encontrei muitas respostas como nunca até então; Mas desconhecia esta questão exposta por André Luis que me lembrei e resolvi perguntar… Desculpe minhas muitas perguntas e se também o assunto não foi pertinente na sua totalidade ao artigo… é que lendo me veio a memória este fato.

    Obrigado pela atenção.

    Sergio R.

  5. A liberdade religiosa é uma das maravilhas da tolerância humana que nos aproxima do divino. Jesus não pregou nenhuma religião e ainda foi traído pelo seu povo (judeu).
    O budismo nos traz grandes ensinamentos e o espiritismo também.
    Sou católica, mas as respostas a tantas questões pessoais que me levaram à reforma íntima e que foram determinantes para a minha busca por evolução espiritual seriam incompletas se eu tivesse me fechado por preconceito e discriminação.
    Namastê,
    Beijos, Morel.

  6. Morel, muito obrigado pela orientação me deixou mais tranquilo.
    Você sempre muito sensato e prestativo.

  7. Silvoni, discussão é perda de tempo e energia. Quem tem razão não a perde por não discutir. Quanto à não aceitação da sua orientação filosófico-religiosa, você não quer mudar ninguém, mas também não pode permitir que mudem você à força. Sei que pode ser duro, mas em nome de nossas verdades algumas relações são temporariamente sacrificadas.

  8. Concordo, Morel. A maioria respeita o espiritismo, eu era católico por batismo mas não praticava por não ver sentido nos rituais. Há um ano frequento uma casa espírita, tenho familiares de religiões evangélicas, sendo ministros e pastores. Três disseram não concordar mas respeitam e uma pastora não aceitou, disse que estou no inferno. Em toda a família uma pessoa não aceitou mas fez muito barulho. Peço orientação como agir com essa pessoa pois discutir não quero e ela não quer mais me ver enquanto eu for espírita.
    Um abraço e continue assim sempre esclarecedor.

  9. Não só respeito como admiro os evangélicos. Respeitar crenças alheias não é virtude, é dever de toda pessoa que reconhece Deus como Pai. Admiro os evangélicos pelo fervor com que se relacionam com Deus, pela maneira com que exercitam a fé nos desígnios de Deus. O maior antídoto contra o orgulho é a crença fervorosa em Deus. Quando Deus está acima de tudo, reconhecemos nossa falibilidade e nos tornamos mais humanos. Não é a crença individual que torna a pessoa melhor ou mais certa. Se reconhece a árvore pelos seus frutos. Obrigado pela participação!

  10. Te agradeço Felipe por respeitar os evangélicos, pois também somos discriminados por pessoas que não respeitam a nossa forma de crer. Pois cremos em seres que não têm residência nesta Terra e que estão aqui pra nos ajudar, cremos sim no espírito santo, que foi enviado pra nos consolar. E respeitamos sim todas as religiões.

  11. Ana Maria, a minha resposta pode parecer uma tentativa de conciliação, mas não é isso. Eu observo, realmente, que é uma minoria de evangélicos que tem esse preconceito. A maior parte respeita ou simplesmente ignora. Acontece que os preconceituosos sempre fazem muito barulho, são espalhafatosos, por isso dá a impressão de que são muitos.

  12. Acredito que exista uma perseguição religiosa mascarada. Principalmente para com os espíritas; há muito preconceito principalmente entre os evangélicos, que pregam que o espiritismo envolve demônios. Acredito que todos os espíritas aceitam as outras religiões, o problema é o inverso que muitas vezes não acontece.

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